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ARTIGO

Senso de suficiência

O agressor testa limites e vai retirando do outro suas referências de realidade e valor

por Ana Carla Cividanes Furlan Scarin
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
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Em contextos marcados por assimetrias de poder, a violência — sobretudo em suas formas psicológicas — não se sustenta apenas pela intenção de ferir, mas pela ausência de um senso de suficiência. Este pode ser compreendido como a capacidade subjetiva de reconhecer o próprio “bastante”, funcionando como limite interno que regula até onde o sujeito pode ir sem invadir ou anular o outro.

Quando esse senso falha, abre-se espaço para dinâmicas de abuso psíquico, bullying e assédio moral. Nessas situações, o outro deixa de ser reconhecido em sua alteridade e passa a ser instrumentalizado como meio de estabilização interna. A violência deixa de ser pontual e passa a operar como processo: uma sequência de microagressões que, reiteradas, produzem desestruturação.

As contribuições de Marie-France Hirigoyen são centrais nesse campo. Ao descrever o assédio moral como violência insidiosa, a autora evidencia como condutas banais — ironias, silêncios, desqualificações sutis — promovem corrosão progressiva da autoestima e da percepção de realidade da vítima. Trata-se de uma violência sem espetáculo, mas de efeitos duradouros.

Hirigoyen destaca que o assédio não se inicia, em geral, com ataques diretos, mas com movimentos quase imperceptíveis de desestabilização. O agressor testa limites e vai retirando do outro suas referências de realidade e valor. Essa dinâmica revela, mais uma vez, a falha no senso de suficiência: há uma necessidade contínua de diminuir o outro para sustentar uma posição interna que não se estabiliza por si mesma.

O agressor, frequentemente, não se reconhece como tal. Sustenta suas ações em racionalizações que mascaram a invasão do outro, revelando dificuldade em reconhecer limites. Aqui, a ausência de suficiência se expressa como excesso: de controle, de exigência e de necessidade de validação.

No ambiente de trabalho, tais práticas podem ser legitimadas por discursos de desempenho, ou meramente critérios pessoais, tornando o abuso mais difícil de nomear. No bullying, a lógica se explicita na tentativa de reduzir o outro para compensar sentimentos de inadequação.

Do ponto de vista ético, o senso de suficiência opera como contenção. Não elimina o conflito, mas impede sua escalada para a violência. Sustentar limites torna-se, assim, expressão de responsabilidade subjetiva: reconhecer que há um ponto em que avançar sobre o outro deixa de ser afirmação e se torna violação.

Ana Carla Cividanes Furlan Scarin

Psicológa clínica e educacional, graduada pela UEL/PR. Mestre e Doutora em Desenvolvimento sociomoral (UNESP), Pós-doutora em Desenvolvimento Humano pela USP/SP. Docente do Ensino Superior e Orientadora Educacional.