ARTIGO

Saúde mental sem justiça social não é cuidado

Esperar que práticas individuais transformem realidades sociais só culpabiliza quem sofre

por Bruna Passetto Seron
Publicado em 19/09/2025 às 19:09Atualizado em 20/09/2025 às 23:33
Diário da Região
Galeria
Diário da Região
Ouvir matéria

Setembro vai, setembro vem, e seguimos incentivados a cumprir à risca o checklist do “autocuidado”: medite, caminhe, se ame mais. Tudo isso, como se a vida dependesse só de força de vontade.

Muitas vezes, não conseguimos seguir todas essas práticas. E mesmo quando conseguimos, o bem-estar desejado nem sempre aparece. O lema do autocuidado, centrado na força de vontade, trata o sofrimento como um problema puramente interno, ignorando as condições de vida que o atravessam.

Esperar que práticas individuais transformem realidades sociais só culpabiliza quem sofre e faz com que ações de prevenção ao suicídio sejam superficiais e muitas vezes ineficazes.

O sofrimento não é igual para todos. Ele é atravessado por gênero, raça, classe, orientação sexual — é político e socialmente determinado. Sofrer é histórico, cultural e, acima de tudo, coletivo.

Mulheres, especialmente, sofrem impactos específicos no Brasil. As mulheres têm 1,5 vez mais chance de desenvolver um transtorno mental ao longo da vida em comparação aos homens. A depressão, por exemplo, é cerca de duas vezes mais comum entre mulheres, enquanto os transtornos de ansiedade atingem duas a 2,5 vezes mais mulheres. Parte dessa insegurança emocional está ligada à violência: as mulheres que sofrem agressões têm risco muito maior de sofrer depressão ou ter ideação suicida.

Após a pandemia, 45% das mulheres brasileiras receberam diagnóstico de ansiedade, depressão ou outro transtorno mental. Além disso, dedicam em média 21,4 horas semanais a tarefas domésticas e cuidados — quase o dobro do tempo gasto por homens — e em 38% dos lares são as únicas ou principais provedoras. As mais jovens, os padrões de beleza impostos (26%) e o medo da violência (16%) também aparecem como fatores que corroem a saúde mental.

Beber mais água, fazer skincare, exercício físico e terapia são muito importantes, mas não salvam as mulheres. Para serem eficazes, é preciso que caminhem de mãos dadas com a justiça social.

Enquanto a sociedade não dividir os cuidados, garantir renda, tempo e dignidade para todas, falar em autocuidado seguirá sendo apenas um slogan — e uma desculpa para a indústria do “bem-estar” lucrar em cima das nossas dores.

Meu autocuidado favorito é a justiça social.

Bruna Passetto Seron

Psicóloga, especialista em violência doméstica e artista plástica. Idealizadora da Maria Violeta, delegada titular da 5ª CNPM e membra do Coletivo Mulheres na Política