São José do Rio Preto, coração aberto
Se a cidade consegue alfabetizar para o futuro, também pode resgatar o passado com planejamento

São José do Rio Preto trocou a história pelo concreto, demoliu quase tudo que contava quem somos. Hoje restam prédios e condomínios fechados, mas quase nada que preserve a memória da cidade.
Outras cidades do mesmo porte cresceram sem apagar o passado. Estão aí algumas: Araraquara, Ribeirão Preto, Campinas, Sorocaba, Piracicaba etc. Souberam preservar prédios, praças e árvores antigas. Até cidades menores, aqui perto, conseguiram preservar e manter parte da história.
Aqui, não. Nas avenidas principais, árvores centenárias foram retiradas, inclusive às margens das represas. Só ficaram lixos e as raízes expostas, sem proteção. Ex.: pista de caminhada ao lado do SESI e entorno da represa, murundum para conter esgoto que vem descendo pelos emissários de longe, sem terra recomposta ou água na seca, sem alimento, "adubo", os formigueiros passeando com as folhas que cortam das árvores, prejudicando a respiração delas. Não vão resistir muito tempo e vão cair, ou seja, vão morrer.
Isso já está acontecendo nos prolongamentos das principais avenidas: Murchid Homsi, Andaló e Bady Bassitt, até o Córrego Borá. Basta dar uma passada nos locais e ver. Calçadas arrebentadas, árvores com as raízes fora da terra.
É uma pena, ou é a falta de administradores competentes e que amam a cidade. O descaso nas praças públicas, parquinhos todos arrebentados, academia para idosos com aparelhos fora de nível e quebrados, gramados sem corte e sujos, até cacos de vidro podem ser encontrados. Calçadas viraram passeio para cães. Nada contra, mas a lei, o que diz? Exige saquinhos, luvas e desinfetantes nas mãos dos donos ou é só no papel? Não se esqueçam: além da sujeira, há risco de doenças como a cólera.
Uma cidade moderna precisa de mais que edifícios e condomínios fechados. Precisa cuidar do verde, da história e do espaço público. Do contrário, o que sobra é só fachada.
Mas há esperança. A UFSCar, campus Rio Preto, acaba de lançar um laboratório para formação de educadores em Inteligência Artificial no Parque Tecnológico. O foco é alfabetização em IA: preparar 20 instituições de ensino e 70 empresas de tecnologia para usar a IA com ética, senso crítico e responsabilidade.
Se a cidade consegue alfabetizar para o futuro com tecnologia e educação, ela também pode resgatar o passado com planejamento e respeito.
Todos sonhamos em voltar a passear com filhos, netos e bisnetos, incentivá-los a usar o espaço público, com músicas, teatros ou sentados nos bancos das praças (limpas), trocar figurinhas ou conversar, brincar e arrumar novos amigos, deixando de lado, por um tempo, os celulares e computadores.
Querida São José do Rio Preto... eu não estarei mais aqui, mas quem sabe ainda possa ver um pouquinho de tudo isso.
Benizio Lopes de Oliveira
Formação superior em desenho e educação artística. Representante de Vendas.