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ARTIGO

Sadismo e redes sociais

Nasce-se sádico, ou torna-se sádico de acordo com as vivências e o direcionamento de nossos desejos?

por Wilson Daher
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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Tenho lido muita coisa sobre a crueldade dos adolescentes que mataram de forma cruel e sádica o cão Orelha em Florianópolis. Não sou (nem quero ser) um expert em sites, redes sociais, etc. Uso as redes sociais para minhas mensagens óbvias, em pouquíssimos grupos, alguns amigos e familiares. E, coisa triste, pagar contas e receber alguns trocados.

As interpretações que tenho lido a respeito deste infausto acontecimento, como era de se esperar, foram muito controversas, muitas vezes ideológicas, haja vista um comentário idiota, a meu ver, contendo uma crítica ao Padre Júlio Lancelotti: "Onde está o padre Lancelotti, que fica alimentando os marginais de rua e não se manifesta sobre o cão?" Não sei se foi assim, ipsis literis, mas a estocada no coração do padre foi também de uma crueldade obtusa. Não seria isto, também, gerado pelo fascínio cruel das redes sociais?

Mas acho importante tentar entender a “selvageria” (entre aspas porque animais selvagens só matam para sobrevivência) destes adolescentes, a todo momento taxados de sádicos por, talvez, sentirem prazer durante a execução do Orelha e, mais intensamente, ao exporem seu crime para deleite sádico de seus seguidores.

Exerci a psiquiatria por mais de 50 anos e, nesse tempo todo, lidei com todas as patologias mentais, inclusive o sadismo. É por isso que estou escrevendo este artigo, buscando entender se seria possível que, com as mudanças para o mundo digital, se operariam mudanças na estrutura mental, fabricando patologias que, antes, considerávamos como simplesmente constitucionais. Simplificando: nasce-se sádico, ou torna-se sádico de acordo com as vivências e o direcionamento de nossos desejos?

Tenho convicção da existência de uma natureza sádica, uma psicopatologia. Mas agora que, para quase além de octogenário, leio e vivencio o que está acontecendo, com as redes sociais, incentivando atos como este, a morte do cão, me pergunto se estamos vendo duplicar o sadismo real com os atos sádicos ocasionais, que propiciam um momento de glória para seus executores diante de sua plateia delirante, babando de gozo orgíaco.

O mundo está mudando, perigosamente, para a banalidade do mal (Hanna Arendt). Os psiquiatras, ou neuropsiquiatras, continuarão tentando entender como tratar a natureza do sádico de raiz. E caberá à sociedade o papel da vigilância das redes sociais para o cuidado (do latim: cura) de seus filhos, que não deveriam crescer à sombra desta banalidade do mal.

Para terminar, um trecho fantástico de um conto de nosso Machado de Assis (A causa secreta) que descreve magistralmente a natureza sádica do personagem Fortunato, se deleitando com a lenta mutilação de um rato, para seu prazer e para o sofrimento do amigo Dr. Garcia:

“Garcia, defronte, conseguiu dominar a repugnância do espetáculo, para fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio; tão somente um vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a vista de uma estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação estética.” Perfeita descrição literária do sadismo de origem, como nos melhores compêndios de psiquiatria.

Wilson Daher

Cronista, psiquiatra aposentado. Mestre e Doutor pela Famerp, membro acadêmico da Arlec.