Resiliência não é aguentar: é se transformar
É por isso que hoje falamos em uma resiliência de segunda geração, chamada de antifragilidade

Nas Olimpíadas de Inverno, um detalhe quase passou despercebido — mas diz muito sobre o mundo em que vivemos. O patinador americano Ilia Malinin quase caiu durante sua apresentação decisiva. Não foi um tropeço leve. Foi aquele instante em que o corpo vacila, o controle ameaça escapar e tudo poderia ruir. Um segundo a mais e o programa estaria comprometido. Um segundo a menos e a história seria outra. Mas o que veio depois não foi retração, nem cautela excessiva. Foi potência. Ele seguiu. E seguiu diferente. Mais presente, mais preciso, mais inteiro. O resultado foi uma apresentação tecnicamente difícil, emocionalmente intensa — e o ouro para os Estados Unidos.
Esse episódio nos convida a rever um conceito que usamos quase no automático: resiliência. Por muito tempo, resiliência foi vendida como sinônimo de “aguentar”, “suportar”, “não cair”. Como se ser forte fosse seguir em frente ignorando o impacto, engolindo o erro, apertando os dentes. Mas a ciência contemporânea já nos mostra outra coisa: o cérebro humano não foi feito para operar em estado permanente de alerta. Quando isso acontece, não há crescimento — há desgaste.
É por isso que hoje falamos em uma resiliência de segunda geração, também chamada de antifragilidade: a capacidade não apenas de resistir ao impacto, mas de se reorganizar a partir dele. Esse conceito é amplamente discutido na Psicologia Positiva contemporânea e foi aprofundado por mim a partir dos estudos e da vivência com Tal Ben-Shahar, durante o evento Mind, realizado no final de 2025.
Do ponto de vista neurocientífico, situações de estresse ativam o sistema de ameaça. O corpo entra em modo de sobrevivência. Se o organismo não encontra segurança — interna ou externa — ele trava. Mas quando existe regulação corporal, emocional e cognitiva, o cérebro acessa estados mais complexos: foco, criatividade, tomada de decisão e adaptação. Foi isso que aconteceu ali, no gelo. Não houve negação da falha. Houve reorganização.
A questão não é evitar esses momentos. Eles são inevitáveis. A questão é o que fazemos depois deles. Seguimos nos cobrando mais?
Apertamos ainda mais o corpo? Ou usamos o impacto como informação — e não como sentença? Antifragilidade não nasce da pressão constante. Ela nasce da capacidade de pausa, leitura interna e ajuste. Não é sobre performance perfeita. É sobre presença após o erro. Sobre não se abandonar no momento em que algo sai do controle.
Talvez o maior aprendizado daquele quase tombo no gelo seja este: não foi a ausência de falha que trouxe o ouro. Foi a capacidade de se reorganizar rapidamente, sem perder o eixo, sem se violentar internamente.
Em um mundo que glorifica velocidade, excesso e produtividade a qualquer custo, aprender a transformar impacto em clareza pode ser uma das competências mais urgentes do nosso tempo. Porque viver bem não é nunca cair. É saber o que fazer quando o chão quase falta.
Bruna Bârbosa
Jornalista, especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness. É aluna especial do Mestrado na Famerp.