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Queremos ser uma nação de fanáticos?

Nós parecemos cultivar uma mania recorrente: a busca por um herói que salve o país

por Fernando Cosenza Araujo
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
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Em 1831, o pensador francês Alexis de Tocqueville visitou os Estados Unidos e escreveu Democracia na América, obra-prima em que analisa igualdade e liberdade, o funcionamento da política e prevê a ascensão dos EUA como potência. O mérito maior do francês foi perceber que a estabilidade não nasce de um homem só, mas de hábitos e arranjos coletivos. Por isso, defendeu menos fé em salvadores, mais compromisso com as instituições.

Esse ponto é um espelho desconfortável para o Brasil. Enquanto Tocqueville valorizava a descentralização, nós parecemos cultivar uma mania recorrente: a busca por um herói que salve o país. A lógica do equilíbrio institucional pede paciência, aceitação do contraditório e moderação. Já a lógica do herói pede o oposto: pressa, simplificação e personalização. Em vez de perguntar “quais instituições precisam funcionar melhor?”, perguntamos “quem vai resolver?”.

A crença no herói é incompatível com o conceito de equilíbrio entre os poderes. Para cumprir a promessa que lhe atribuem, o herói precisa estar acima dos limites, justamente o que a separação de poderes foi desenhada para impedir. O atrito entre Executivo, Legislativo e Judiciário não é um defeito do sistema; é uma proteção contra abusos. Heróis humanos sempre decepcionam porque, cercados de aplausos, tendem a acreditar que podem tudo.

É nesse ambiente que o fanatismo prospera. A política, que deveria ser o exercício racional de escolher meios para fins coletivos, se transforma em arquibancada para torcidas organizadas. Daí nasce a incapacidade de reconhecer nuances — e a tentação constante de “purificar” o país pela força de um personagem. A esperança se concentra em um homem; a frustração também. E uma nação que deposita suas expectativas em heróis acaba tratando a democracia como se fosse uma religião. Isso não funciona.

Por isso, ninguém de “saco roxo”, nenhum “pai dos pobres”, nenhum “mito” ou “homem de capa” será capaz de salvar o Brasil dele mesmo. Precisamos de líderes, e não de heróis. Líderes são homens conscientes de seus limites; governam por método, não por culto; pedem colaboração, não devoção; aceitam ser contrariados porque entendem que o contraditório é parte da democracia. Se quisermos menos fanatismo e mais progresso, o caminho é o mesmo que Tocqueville sugeriu: fortalecer a sociedade civil, descentralizar o poder e educar politicamente o cidadão.

Fernando Cosenza Araujo

Bacharel em Relações Internacionais pela UnB, Mestre e Doutor em Administração Pública pela FGV-SP.