RADAR ECONÔMICO

Quem não se adapta, some do carrinho

por Walter Carrazzone Junior
Publicado em 08/03/2026 às 03:00
Walter Carrazzone Junior (Divulgação)
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Walter Carrazzone Junior (Divulgação)
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Há momentos em que o varejo muda por fora, com novas vitrines e novos canais. E há momentos em que ele muda por dentro, na organização da decisão de compra, disputa por atenção e o modo como a confiança é construída. É isso que acontece agora. A tecnologia deixa de ser uma camada de divulgação e passa a ocupar o centro do relacionamento entre empresas e consumidores, redefinindo o que significa ser competitivo em um mercado cada vez mais acelerado e exigente.

A discussão internacional recente sobre os próximos usos da inteligência artificial no varejo reforça um ponto que deveria ser tratado como prioridade econômica. Quando ferramentas digitais conseguem elevar taxas de conversão e aumentar recorrência, o que se altera não é só a forma de vender, mas a estrutura de custos e a capacidade de gerar caixa com menos desperdício. Isso impacta em margens, produtividade e na sobrevivência do negócio.

O ponto mais sensível dessa mudança é que a compra deixa de ser uma escolha diante da vitrine e se torna uma jornada guiada, em que sugestões e avaliações são organizados por sistemas inteligentes. O consumidor decide dentro de um roteiro. E roteiro, no varejo, significa direcionamento de demanda. Essa é uma mudança econômica relevante porque desloca poder. O varejista que entende isso não se pergunta qual ferramenta adotar, mas sim como evitar que a margem seja corroída por depender de intermediários invisíveis.

É aqui que a conversa sobre eficiência precisa ser complementada pela conversa sobre soberania do relacionamento. A tecnologia tem efeito evidente na produtividade, mas reconfigura a forma como o mercado se organiza. Se o consumidor se acostuma a comprar por meio de assistentes digitais, o canal de entrada deixa de ser a vitrine do lojista e passa a ser um intermediador. Quando o acesso é mediado, a concorrência não acontece por preço, mas sim por relevância dentro de sistemas que ranqueiam e recomendam. Isso altera o jogo até em pequenos negócios.

Outro ponto a ser visto com mais maturidade é a ideia que tecnologia substitui gente. Na realidade ela reorganiza a divisão do trabalho e reequilibra o que vale dentro da operação. Tarefas repetitivas tendem a ser automatizadas. Isso libera tempo e exige qualificação, porque a equipe faz o que a máquina não faz, lida com exceções, transforma um atendimento em relação. O varejo, sobretudo no interior, sempre teve vantagem baseada em proximidade e confiança. A tecnologia pode ampliar essa força, desde que usada para dar consistência ao que já é bom.

Quando se fala em personalização, é preciso ser responsável. A personalização bem feita reduz atrito e melhora a experiência. A personalização mal conduzida gera rejeição e pode romper a confiança. O avanço tecnológico aumenta a capacidade de coletar e cruzar dados, mas a maturidade empresarial precisa aumentar junto. Transparência, limites claros e respeito ao consumidor são fatores econômicos, porque confiança virou um ativo raro e, em mercados competitivos, a perda de reputação custa mais caro do que qualquer ferramenta.

Nesse cenário, a estratégia regional não pode ser passiva. É comum ouvir que inovação é coisa de grandes empresas, mas essa leitura é perigosa porque transforma um desafio em desculpa. O consumidor de nossa cidade não está isolado. Ele compra em lojas físicas e digitais, compara preços, e se acostuma ao que reduz tempo. Isso significa que o padrão de exigência sobe com a renda pressionada. Essa combinação é dura para o varejo, porque obriga empresas a entregar mais valor com menos margem para erro. Quem não melhora presença digital, perde descoberta.

O caminho não é tentar copiar modelos, mas construir um plano de modernização compatível com a realidade da empresa. Começa por organização e disciplina. Depois vem a integração, reduzir ruídos entre loja e suporte. Em seguida, vem o uso inteligente de tecnologia para acelerar tarefas, qualificar abordagem e apoiar decisão. E, por fim, capacitar pessoas para operar essa mudança. Tecnologia sem equipe preparada gera frustração. Equipe preparada sem processos claros gera desperdício. Processos claros sem estratégia de relacionamento viram rotina.

O varejo do nosso tempo não será separado entre tradicional e moderno. O que vai separar vencedores de perdedores é a capacidade de transformar tecnologia em ganho de produtividade e preservar o que sustenta a compra, confiança e valor percebido. Em um ambiente em que a atenção do consumidor virou moeda e a jornada virou roteiro, a empresa que não se adapta simplesmente deixa de aparecer. Quando o cliente não vê, não lembra. Quando não lembra, não volta. Quando não volta, o caixa sente. No fim, não há discurso que sustente um negócio que se torna invisível.

Walter Carrazzone Junior
Diretor de Comércio da Acirp