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Quem é você?

Identidade não é prisão, mas possibilidade: um espaço aberto onde se cruzam heranças e invenções

por Alexandre Felipe de Oliveira
Publicado há 8 horas
Alexandre Felipe de Oliveira (Divulgação)
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Alexandre Felipe de Oliveira (Divulgação)
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Quem nunca, em algum momento da vida, se perguntou: “Quem sou eu?” A identidade, frequentemente evocada como base para reivindicações sociais e construção de pertencimentos, constitui um terreno complexo e disputado, sujeito a múltiplas interpretações e instrumentalizações.

Na psicanálise, no início, o termo identidade é relacionado à identificação, partindo de uma vinculação com o outro (objeto) que acontece pela atualização de identificações realizadas na primeira infância, que passa a ser partilhada com outras pessoas. Posteriormente, o conceito de identificação adquire uma formulação mais consolidada, sendo compreendido como um processo psíquico inconsciente por meio do qual se estabelecem vínculos afetivos primários, especialmente nas relações parentais.

Esses vínculos desempenham papel fundamental na constituição da personalidade, funcionando como um mecanismo essencial à formação do ego. Nesse processo, o ego incorpora traços e características de figuras significativas do ambiente relacional. Conforme destaca Sigmund Freud, o pai da psicanálise, trata-se de um mecanismo estruturante da subjetividade. É sob essa perspectiva que o autor afirma que a identificação representa “a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa”.

O sujeito sociológico constitui-se a partir da relação com o outro e do comprometimento com a cultura em que está inserido, sendo moldado pelas estruturas sociais, valores e práticas culturais do seu contexto.

A partir dessa perspectiva, compreende-se que a identidade é uma construção histórica, política e simbólica, marcada pela representação e pela diferença. Tal compreensão exige a consideração de múltiplos fatores que atravessam o sujeito, como idade, gênero, classe social e econômica, localização geográfica, status político, idioma, etnia, entre outros. Esses elementos identitários são frequentemente compartilhados por meio de narrativas coletivas nos grupos sociais, sendo profundamente influenciados pela cultura à qual os indivíduos pertencem.

Assim, pensar a identidade é reconhecer que ela nunca está concluída. É um fluxo, uma travessia em constante transformação, que se reinventa a cada encontro, a cada perda, a cada memória ressignificada. O sujeito não é uma peça fixa em um tabuleiro, mas um mosaico vivo de experiências, afetos e escolhas que se entrelaçam no tempo. Identidade não é prisão, mas possibilidade: um espaço aberto onde se cruzam heranças e invenções.

Alexandre Felipe de Oliveira
Psicólogo (CRP 06/142422) atuante nas áreas clínica e social