ARTIGO

Quanto de você ainda há em você?

Meninas aprendem cedo que são elas que apaziguam, que acolhem, que perdoam

por Bruna Passetto Seron
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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A compreensão é meu primeiro idioma. Por muito tempo, acreditei que não era apenas uma habilidade minha, mas parte constitutiva da minha forma de existir. Se me abrissem em autópsia, encontrariam compreensão entre os órgãos vitais. Compreender é meu reflexo — e minha sentença.

Fui ensinada a dar chances desde a infância. Não foi dentro de mim que nasceu essa compreensão exagerada, ela me foi imposta a partir da notícia de que eu era menina.

Meninas aprendem cedo que são elas que apaziguam, que acolhem, que perdoam. Que são “maduras” quando suportam. Que são “fortes” quando silenciam. Que são “equilibradas” quando não reagem. A compreensão, para nós, não é apenas virtude — é exigência.

Quando foi que aprendemos que reagir com raiva a situações abusivas é sinônimo de desequilíbrio mental?

Não por acaso, crescemos aprendendo que “Amélia é que era mulher de verdade”, como canta Ataulfo Alves; que a mulher ideal “tem que saber amar, sofrer pelo seu amor e ser só perdão”, como escreve Vinicius de Moraes; e que, por amor, “tudo sofre, tudo suporta” (1 Coríntios 13:7).

Inspirada na pergunta que Clarice Lispector faz em "Se Eu Fosse Eu", às vezes penso que, se eu fosse eu, não me conteria tanto - e se eu tivesse a ousadia de atravessar as camadas de expectativa, encontrasse, do outro lado, o eu, sujeito de mim.

Você, mulher que me lê, experimente: se você fosse você, o que faria? Será mesmo que seria tão compreensiva, agradável, equilibrada? Teria o direito de reagir sem ser punida?

Talvez nosso maior medo nem seja reagir, e sim descobrir que o amor que nos oferecem só existe enquanto condição de obediência, equilíbrio e silêncio.

Beauvoir argumenta que a mulher foi historicamente colocada no lugar de “outro”, quase um sujeito-extensão, nunca plenamente reconhecida como sujeito de si. Já em "Se Eu Fosse Eu", Lispector lança uma pergunta inquietante: quem seríamos se realmente fôssemos nós mesmas?

Essas duas ideias se encontram justamente aí: para muitas mulheres, tornar-se verdadeiramente “eu” ainda é um pequeno gesto de desobediência — atravessar camadas de expectativa e papéis aprendidos até finalmente ocupar o lugar de sujeito da própria história.

Mas e se não houvesse nenhuma consequência: quem você realmente seria, se você fosse você?

Bruna Passetto Seron

Psicóloga, especialista em violência doméstica e artista plástica. Idealizadora da organização Maria Violeta, delegada da 5ª CNPM e membra do coletivo Mulheres na Política.