Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
ARTIGO

Quando o jogo acaba

Toda vez que uma grande competição termina, os registros de violência doméstica aumentam

por Lana Braga
Publicado em 14/07/2026 às 21:13Atualizado em 14/07/2026 às 21:20
Diário da Região
Galeria
Diário da Região
Ouvir matéria

Há derrotas que terminam no apito final. Outras, infelizmente, apenas começam.

A eliminação do Brasil da Copa do Mundo entristece milhões de torcedores. Faz parte do esporte ganhar e perder. O futebol desperta paixão, identidade e emoção. Mas existe um outro jogo, muito mais cruel e silencioso, que começa quando as luzes do estádio se apagam: o da violência contra a mulher.

Toda vez que uma grande competição termina, especialmente após derrotas, os registros de violência doméstica aumentam em diversos países. A combinação entre frustração, consumo excessivo de álcool e comportamentos agressivos transforma milhares de lares em verdadeiros campos de batalha. Enquanto muitos lamentam um resultado, inúmeras mulheres passam a lutar pela própria sobrevivência.

É impossível aceitar que a derrota de uma seleção seja usada como desculpa para um tapa, um empurrão, uma ameaça ou um feminicídio. Não existe justificativa para a violência. O álcool pode potencializar comportamentos, mas não cria um agressor. A decisão de agredir é sempre de quem agride.

Por trás das estatísticas existem mães, esposas, filhas e crianças que convivem com o medo. Muitas delas passam o jogo inteiro apreensivas, não pelo resultado da partida, mas pelo que pode acontecer quando o árbitro apitar o fim. É doloroso imaginar que, para essas mulheres, o encerramento do jogo significa o início de horas de terror.

Como sociedade, precisamos romper esse ciclo. Precisamos falar mais sobre masculinidade responsável, controle emocional, respeito e igualdade. Precisamos fortalecer as redes de proteção, incentivar as denúncias e garantir que nenhuma mulher se sinta sozinha diante da violência.

O futebol tem o poder de unir pessoas, emocionar gerações e criar memórias inesquecíveis. Ele jamais pode servir de combustível para a agressão. A paixão pelo esporte deve terminar no estádio, na televisão ou nas rodas de conversa, nunca dentro de casa, atingindo quem não tem qualquer responsabilidade pelo resultado.

Quando o jogo acaba, a vida continua. E ela precisa continuar com dignidade, segurança e respeito.

Que a tristeza por uma derrota passe. Que a comemoração por uma vitória também passe. Mas que permaneça a certeza de que nenhuma partida vale mais do que a vida de uma mulher.

Porque o verdadeiro placar que importa não é o do futebol. É o de uma sociedade capaz de proteger suas mulheres, educar seus homens e ensinar que força nunca será sinônimo de violência.

Quando o jogo acaba, o respeito precisa permanecer em campo.

Lana Braga

Secretária do Desenvolvimento Social, bacharel em Direito, fundadora do Instituto Maria na Comunidade e especializada em violência doméstica.