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ARTIGO

Quando conformidade deixa de ser obrigação

Estamos entrando em uma fase em que não basta afirmar que se protege dados

por Adriana Cansian
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Adriana Cansian (Divulgação)
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No Dia da Proteção de Dados, comemorado no último dia 28 de janeiro, é comum que empresas reafirmem seu compromisso com a privacidade por meio de discursos genéricos sobre conformidade legal. Mas, em um cenário de transformação digital acelerada, ataques cibernéticos sofisticados e crescente assimetria regulatória, essa abordagem já não é suficiente. A proteção de dados deixou de ser apenas um requisito jurídico. Ela se consolidou como um elemento central de governança, confiança e vantagem competitiva.

A proteção de dados não é só LGPD. A LGPD inaugurou no Brasil um novo paradigma: dados pessoais passaram a ser tratados como ativos estratégicos, cujo uso exige responsabilidade, transparência e segurança. No entanto, cumprir a lei “no papel” não significa, necessariamente, estar protegido na prática.

Incidentes recentes mostram que muitas organizações ainda operam com uma visão fragmentada: políticas bem redigidas, mas controles frágeis; cláusulas contratuais sofisticadas, mas processos operacionais imaturos; discursos de compliance dissociados da realidade técnica.

Proteção de dados eficaz exige gestão de riscos integrada, envolvendo: segurança cibernética operacional; governança de acesos e identidades; monitoramento contínuo; resposta estruturada a incidentes; e alinhamento entre jurídico, tecnologia e negócios. Sem isso, a conformidade se torna apenas declaratória e vulnerável.

Dados, segurança e reputação são um triângulo indissociável. Hoje, um incidente de segurança não gera apenas impacto técnico ou jurídico. Ele afeta diretamente: a confiança de clientes e parceiros; a continuidade do negócio; a posição competitiva da empresa no mercado; e a própria capacidade de crescimento sustentável.

É por isso que reguladores, investidores e grandes contratantes passaram a exigir evidências concretas de maturidade em proteção de dados e segurança da informação. O foco saiu da intenção e migrou para a capacidade real de prevenção, detecção e resposta.

Nesse contexto, proteção de dados não é custo. É infraestrutura de confiança. Não existe proteção de dados sem segurança da informação. E não existe segurança da informação eficaz sem inteligência, visibilidade e integração.

Ferramentas isoladas, controles desconectados e respostas improvisadas não acompanham a complexidade do ambiente digital atual. O que se exige é uma abordagem sistêmica, capaz de antecipar riscos, reduzir superfícies de ataque e responder rapidamente a eventos críticos. Empresas que compreendem isso deixam de tratar a proteção de dados como um projeto pontual e passam a incorporá-la como pilar permanente da estratégia corporativa.

Estamos entrando em uma fase em que não basta afirmar que se protege dados. Será necessário demonstrar: governança; controles; capacidade operacional; e resposta a incidentes.

Adriana Cansian

Professora da Unesp.