Quando conformidade deixa de ser obrigação
Estamos entrando em uma fase em que não basta afirmar que se protege dados

No Dia da Proteção de Dados, comemorado no último dia 28 de janeiro, é comum que empresas reafirmem seu compromisso com a privacidade por meio de discursos genéricos sobre conformidade legal. Mas, em um cenário de transformação digital acelerada, ataques cibernéticos sofisticados e crescente assimetria regulatória, essa abordagem já não é suficiente. A proteção de dados deixou de ser apenas um requisito jurídico. Ela se consolidou como um elemento central de governança, confiança e vantagem competitiva.
A proteção de dados não é só LGPD. A LGPD inaugurou no Brasil um novo paradigma: dados pessoais passaram a ser tratados como ativos estratégicos, cujo uso exige responsabilidade, transparência e segurança. No entanto, cumprir a lei “no papel” não significa, necessariamente, estar protegido na prática.
Incidentes recentes mostram que muitas organizações ainda operam com uma visão fragmentada: políticas bem redigidas, mas controles frágeis; cláusulas contratuais sofisticadas, mas processos operacionais imaturos; discursos de compliance dissociados da realidade técnica.
Proteção de dados eficaz exige gestão de riscos integrada, envolvendo: segurança cibernética operacional; governança de acesos e identidades; monitoramento contínuo; resposta estruturada a incidentes; e alinhamento entre jurídico, tecnologia e negócios. Sem isso, a conformidade se torna apenas declaratória e vulnerável.
Dados, segurança e reputação são um triângulo indissociável. Hoje, um incidente de segurança não gera apenas impacto técnico ou jurídico. Ele afeta diretamente: a confiança de clientes e parceiros; a continuidade do negócio; a posição competitiva da empresa no mercado; e a própria capacidade de crescimento sustentável.
É por isso que reguladores, investidores e grandes contratantes passaram a exigir evidências concretas de maturidade em proteção de dados e segurança da informação. O foco saiu da intenção e migrou para a capacidade real de prevenção, detecção e resposta.
Nesse contexto, proteção de dados não é custo. É infraestrutura de confiança. Não existe proteção de dados sem segurança da informação. E não existe segurança da informação eficaz sem inteligência, visibilidade e integração.
Ferramentas isoladas, controles desconectados e respostas improvisadas não acompanham a complexidade do ambiente digital atual. O que se exige é uma abordagem sistêmica, capaz de antecipar riscos, reduzir superfícies de ataque e responder rapidamente a eventos críticos. Empresas que compreendem isso deixam de tratar a proteção de dados como um projeto pontual e passam a incorporá-la como pilar permanente da estratégia corporativa.
Estamos entrando em uma fase em que não basta afirmar que se protege dados. Será necessário demonstrar: governança; controles; capacidade operacional; e resposta a incidentes.
Adriana Cansian
Professora da Unesp.