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ARTIGO

Quando a propaganda entra em campo

Regular não é censurar nem destruir um modelo de transmissão

por Leonardo Amorim
Publicado em 28/07/2026 às 20:58Atualizado em 28/07/2026 às 21:04
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Ao final da Copa do Mundo, posso dizer: gostei de assistir à CazéTV. Há ali uma linguagem que entende o presente: mais veloz, mais informal, próxima de um público acostumado a viver diante de telas. O YouTube não é apenas outro canal, é parte de uma revolução digital que mudou a maneira de acompanhar o esporte, comentar o jogo e participar dele. Eu ainda prefiro a ESPN quando busco debate aprofundado, talvez por ser millennial, criado em meio à TV a cabo, mas seria ingênuo negar que o futuro da transmissão passa por esse novo formato.

Por isso, o problema não está na CazéTV. Está no ambiente em que ela atua. O entretenimento contemporâneo é sustentado por dinheiro, patrocínio e disputa por atenção. Nenhuma plataforma oferece grandes eventos só por generosidade. Se as casas de apostas ocupam vinhetas, cenários, bordões e intervalos, é porque encontraram um espaço legal, econômico e político disponível. A empresa explora uma possibilidade, e quem deveria definir os limites dessa possibilidade é o Estado.

Nesse sentido, a história da publicidade já mostrou como isso funciona. Os cigarros foram, por décadas, vendidos como símbolos de liberdade, elegância e sucesso. Não desapareceram das propagandas porque as empresas reconheceram espontaneamente o dano que causavam, mas porque leis impuseram restrições. Com as bebidas alcoólicas, ocorreu algo semelhante: a redução de excessos só veio quando a regulação começou a limitar horários, formatos e públicos. O mercado raramente interrompe sozinho aquilo que continua sendo lucrativo.

Com as BETs, repetimos o mesmo roteiro, agora em velocidade digital. A aposta aparece misturada ao futebol, como se fosse uma extensão natural da torcida. O espectador já não é convidado apenas a assistir, mas a transformar cada escanteio, cartão ou gol em possibilidade de ganho. Guy Debord chamou de sociedade do espetáculo esse mundo em que a experiência é mediada por imagens e mercadorias. Hoje, o espetáculo não vende somente o jogo: vende também a sensação de que todos podem lucrar com ele.

Seria injusto exigir que uma plataforma privada resolvesse, sozinha, uma questão social que ultrapassa sua função. A CazéTV fala com o público de seu tempo e financia transmissões abertas dentro das regras existentes. A crítica deve se dirigir, sobretudo, ao poder público, que permite que a tecnologia avance mais rápido do que a proteção da sociedade. Quando a lei se cala, a propaganda fala sem intervalo.

Compete ao governo zelar pelo cidadão, especialmente quando estão em jogo endividamento, dependência e exposição de crianças e adolescentes. Regular não é censurar nem destruir um modelo de transmissão, é estabelecer fronteiras entre entretenimento e exploração. O Estado já demorou diante do cigarro e foi condescendente com a bebida. Se repetir a mesma inércia com as apostas, não poderá alegar surpresa quando descobrir que, enquanto todos assistiam ao jogo, uma parte do público já havia perdido muito mais do que noventa minutos.

Leonardo Amorim

Professor do ensino privado em São José do Rio Preto e Mestre em Literatura