Quando a linha dos sonhos se estreita
Observar onde e por que essa linha dos sonhos começa a se estreitar é um exercício coletivo

Existe uma linha invisível que acompanha a infância: a linha dos sonhos. Ela nasce larga, aberta, sem cálculos ou limites. No início da vida, meninas sonham sem pedir licença — podem ser astronautas, cientistas, exploradoras, caçadoras, inventoras de mundos. O sonho não distingue espaço, risco ou estatística. Ele simplesmente acontece.
Com o tempo, essa linha começa a se estreitar. Para as meninas, a realidade costuma chegar cedo. Alertas constantes, cuidados excessivos, vigilância sobre o corpo e expectativas de comportamento vão ensinando, pouco a pouco, que sonhar alto pode ser perigoso. A infância encurta. O sonho também. Não por falta de imaginação, mas porque a vulnerabilidade feminina antecipa responsabilidades que não deveriam existir tão cedo.
Essa linha não desaparece na vida adulta. Ela apenas muda de forma. Muitas mulheres crescem eficientes, responsáveis, altamente capacitadas para sustentar rotinas complexas e decisões difíceis. Aprendem a escolher com prudência, a medir consequências, a ocupar espaços com cautela. O desejo, muitas vezes, passa a ser condicionado ao que é possível, seguro ou socialmente aceitável — e não ao que é, de fato, desejado.
Esse mesmo movimento se repete no espaço público e no debate de ideias. Homens seguem aparecendo com mais frequência como intérpretes de temas considerados universais — política, economia, poder, tecnologia. Já as mulheres, quando ocupam esses espaços, são frequentemente associadas ao cuidado, às questões sociais, à experiência cotidiana ou à reivindicação de direitos, como se sua presença estivesse sempre ligada à reparação de alguma falta.
Não se trata de capacidade ou repertório. Trata-se de autorização simbólica: do que se espera que cada um diga, e sobre o quê. Assim como na infância o sonho vai sendo ajustado ao risco, na vida adulta a voz também encontra barreiras silenciosas, quase sempre naturalizadas.
Quando mulheres falam de desigualdade, violência ou cuidado, não estão tratando de assuntos menores ou periféricos. Estão falando da própria estrutura da vida social. Ainda assim, esses temas raramente são reconhecidos como centrais, embora sustentem o funcionamento do mundo que insistimos em chamar de universal.
Observar onde e por que essa linha dos sonhos começa a se estreitar — e o que se perde nesse processo — é um exercício coletivo. Não se trata apenas de termos individuais, nem apenas de meninas mais livres, mas de mulheres mais inteiras. Quando os sonhos são diminuídos cedo demais, algo no futuro coletivo também se ajusta para baixo.
Talvez mudar isso não seja romper com tudo, mas ajustar o rumo. Porque ampliar sonhos e vozes não empobrece o debate. Ao contrário: torna-o mais verdadeiro.
Erika Bismarchi
Mestra em Políticas Públicas, jornalista, escritora e assistente social. Idealizadora da Maria Violeta e membra do Coletivo Mulheres na Política.