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ARTIGO

Quando a exposição a agrotóxicos atravessa gerações

Estamos sujeitos aos efeitos de agentes químicos utilizados sem a regulamentação adequada

por Fábio Rogério de Moraes
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
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Não é novidade que estamos expostos a uma série de resíduos potencialmente danosos à nossa saúde. A poluição dos grandes centros urbanos e o uso indiscriminado de herbicidas e fungicidas nas lavouras brasileiras são exemplos claros. Vale lembrar que vários agrotóxicos permitidos no Brasil são proibidos em países europeus e em outras partes do mundo.

Em novembro do ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS), por meio da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), classificou dois herbicidas amplamente utilizados, atrazina e alacloro, como “provavelmente cancerígenos para humanos”. A agência também classificou o fungicida vinclozolina, que não possui regulamentação específica no Brasil, como “possivelmente cancerígeno”.

Pesquisas recentes indicam que os efeitos desses compostos podem ir muito além do que imaginamos, estendendo-se por várias gerações após o contato inicial. Um estudo liderado por Michael Skinner, pesquisador da área de epigenética da Washington State University, mostrou que a exposição de camundongos ao fungicida vinclozolina provocou alterações observáveis por até 20 gerações. Em termos humanos, isso equivaleria a aproximadamente 500 anos.

No experimento, os pesquisadores expuseram camundongos ao fungicida e monitoraram, ao longo das gerações seguintes, alterações no DNA em comparação com animais não expostos. O grupo avaliou mudanças epigenéticas, modificações que influenciam a expressão dos genes sem alterar a sequência do DNA, e encontrou efeitos significativos.

Machos apresentaram maior probabilidade de problemas na produção de espermatozoides, enquanto fêmeas tiveram maior incidência de complicações na gestação, incluindo morte da prole ou da própria mãe. Em alguns casos, os problemas se intensificaram ao longo das gerações. Na vigésima geração de animais expostos, todas as fêmeas apresentavam alterações ovarianas.

Embora resultados obtidos em camundongos, que compartilham mais de 90% do DNA com os seres humanos, não possam ser automaticamente extrapolados para nossa espécie, eles servem como um importante alerta. Estamos sujeitos aos efeitos de agentes químicos que, no passado, foram utilizados sem a regulamentação adequada. Um exemplo histórico é o tetraetilchumbo, aditivo usado em combustíveis no século XX, cujo impacto ambiental foi fundamental para os estudos do geoquímico Clair Patterson sobre a idade da Terra. O chumbo liberado por esse composto foi associado a problemas neurológicos, cardiovasculares e renais e permeou todo o planeta por décadas.

Não podemos mudar a ausência de regulamentação do passado, é quase como um carma coletivo que carregamos como sociedade. Mas isso deve servir de alerta para a necessidade de debate e de políticas mais responsáveis no presente. Afinal, nossas decisões de hoje podem afetar não apenas a nossa geração, mas também muitas outras que ainda virão.

Como diz um conhecido provérbio indígena, não herdamos a Terra de nossos antepassados; nós a tomamos emprestada de nossos filhos. Assim como a Terra, também nosso DNA é uma herança que atravessa gerações.

Fábio Rogério de Moraes

Físico, Auxiliar de Pesquisa, IBILCE - UNESP.