Provérbios
Nos tempos de vereador, convivi com colegas que gostavam de citações

Viciado em provérbios, sempre gostou de expressões populares e de frases fáceis de serem compreendidas. Não se sabe quando deixou de ser fiel ao original, modificando seus significados. Quando estava feliz e com amigos, dizia: “me sinto como um peixe dentro da água”.
Sabia tudo sobre os provérbios bíblicos e era capaz de discorrer longamente sobre o “Livro dos Provérbios”. Considerava-os pura poesia e de comprovada sapiência. Confessava que, no passado, utilizava-os como bússola moral e guia de orientação para o cotidiano da vida. No entanto, cansara-se dos exemplos originais.
De vez em quando destoava. Numa roda, disse, em razão da história de um amigo, que existem pedras resistentes, onde a água bate repetidamente e não fura. O amigo incomodado soltou: “O que você quer dizer com isso?”. “Ora, nada, apenas que você está se chocando contra uma parede intransponível. Desse mato só sai cascavel”. A discussão não progrediu.
“Só se percebe o valor da água quando se mata a sede” e não adiantava apontar que o certo é “só se percebe o valor da água quando a fonte seca”. Sinônimo de provérbio é adágio, ditado, dito, máxima, aforismo. Há outros. Sobre este imaginário debate, vale o provérbio: “Censuram quem se mantém calado; censuram quem fala muito; censuram quem fala pouco; neste mundo ninguém está livre de censuras”. Este vem do budismo, mas a sentença não é curta.
Millôr Fernandes foi autor e escreveu belas colunas com o título “Livre pensar é só pensar”, lembrando sempre que pensar com autonomia é inerente ao ser humano, simples e não precisa de permissão. Millôr foi um gênio e nunca foi preso, escapando da prisão em massa da equipe do “O Pasquim”, em novembro de 1970. “O Pasquim” fez parte da resistência à ditadura militar.
Este texto merece estar entre as inutilidades indesculpáveis. E, por falar nisso: “Desculpas não apagam culpas” ou “Quem as desculpa escuta, já se obriga a perdoar”. O tema é árido e aqueles que insistem nessa linha de argumentos são rotulados de chatos. Nos tempos de vereador, convivi com colegas que gostavam de citações, também algo semelhante e aborrecido quando exageradamente repetido.
Jesus nos deixou alguns provérbios, entre eles: “A César o que é de César, a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:15-22). Vou parar por aqui, porque de boca fechada não saem bobagens ou “boca fechada não entra mosca”.
Laerte Teixeira da Costa
Vice-presidente da UGT e ex-vereador em São José do Rio Preto.