Produzir sem desmatar é possível
O Brasil pode ser simultaneamente potência agrícola e potência ambiental

O Brasil ainda se debate com um falso dilema: preservar a natureza ou produzir alimentos. Essa oposição simplista ignora um fato concreto: o país já possui terra suficientemente aberta e subutilizada para expandir a produção agrícola sem derrubar uma única árvore sequer.
Um exemplo pouco lembrado são as chamadas faixas de domínio ao longo de rodovias e ferrovias. Essas áreas públicas, administradas por órgãos como o Dnit e reguladas pela ANTT, estendem-se por milhares de quilômetros pelo território nacional. Somadas, podem alcançar algo entre 6 e 7 milhões de hectares. Grande parte dessas áreas encontra-se degradada, abandonada ou ocupada de forma irregular.
Se bem planejadas, poderiam se transformar em corredores ecológicos contínuos, com reflorestamento de espécies nativas, proteção de nascentes e recuperação do solo. Além de ampliar a biodiversidade, ajudariam a capturar carbono, reduzir erosão e melhorar a paisagem ao longo das principais infraestruturas do país. Seria uma rede verde conectando regiões inteiras.
Em contrapartida, ganha força a ideia de permitir, de forma planejada e responsável, o uso de áreas já abertas na Amazônia, hoje subaproveitada. Agricultura moderna, pecuária de baixo carbono e sistemas integrados podem elevar a produção sem avançar sobre a floresta em pé.
Ao mesmo tempo, o Brasil possui outra oportunidade gigantesca: cerca de 30 milhões de hectares de pastagens degradadas, segundo estimativas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Essa área, maior que muitos países, representa talvez a maior fronteira agrícola do mundo que já está aberta. Recuperá-la com tecnologia moderna, manejo adequado e integração lavoura-pecuária-floresta permitiria multiplicar a produção de alimentos, fibras e energia renovável.
Nesse contexto, surge uma lógica simples e poderosa: restaurar ambientalmente áreas estratégicas já degradadas — como margens de estradas, ferrovias e corredores naturais — enquanto se intensifica a produção nas áreas que foram abertas no passado. Produzir mais onde já se produz e preservar melhor onde a natureza precisa ser recomposta.
O Brasil reúne ciência, tecnologia e território para liderar esse modelo. Podemos ser simultaneamente potência agrícola e potência ambiental. Não é preciso escolher entre floresta e alimento. Com planejamento, inovação e responsabilidade, é possível avançar nas duas direções.
Produzir mais, preservar melhor e derrubar menos não é utopia. É simplesmente usar com inteligência o imenso patrimônio territorial que o Brasil já possui.
Daniel de Freitas
Empresário, ex-presidente da Acirp, Rio Preto.