Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
ARTIGO

Por que assistir a um filme legendado ficou tão difícil?

Talvez a programação das salas de Rio Preto diga menos sobre os exibidores e muito mais sobre nós

por Miguel Flauzino
Publicado em 20/07/2026 às 21:19Atualizado em 20/07/2026 às 21:23
Diário da Região
Galeria
Diário da Região
Ouvir matéria

Durante muito tempo, quem gostava de cinema discutia uma coisa: dublado ou legendado? Havia argumentos para os dois lados, mas existia algo mais importante do que isso: a possibilidade de escolher. Hoje, em Rio Preto, essa escolha está praticamente desaparecendo.

Analisei a programação dos quatro complexos de cinema da cidade. O resultado chama atenção. O Plaza Avenida e o Shopping Cidade Norte não oferecem sessões legendadas. No Rio Preto Shopping, elas praticamente se limitam à sala VIP e em horários próximos das 22 horas. Apenas o Iguatemi mantém uma oferta consistente entre versões dubladas e legendadas.

O cenário também aparece nas grandes estreias. Homem-Aranha, um dos filmes mais aguardados do mês, estreia com 36 sessões, mas apenas seis legendadas. Já A Odisseia, novo épico de Christopher Nolan, terá 12 sessões, sendo cinco legendadas.

É claro que os cinemas não fazem isso por acaso. Eles seguem aquilo que o público consome. Se a maior parte dos ingressos é vendida para sessões dubladas, a lógica do mercado é simples: aumentar a oferta desse formato.

Mas talvez exista uma discussão mais interessante por trás desses números.

Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), 29% dos brasileiros são analfabetos funcionais, ou seja, conseguem ler, mas encontram dificuldades para interpretar textos mais complexos. Ao mesmo tempo, vivemos uma época de vídeos curtos, consumo acelerado e cada vez menos disposição para atividades que exigem atenção prolongada.

Não é possível afirmar que esses fatores expliquem, sozinhos, a preferência pela dublagem. Mas é difícil ignorar que a forma como consumimos conteúdo também influencia a forma como consumimos cinema.

Talvez a programação das salas de Rio Preto diga menos sobre os exibidores e muito mais sobre nós. Afinal, se o mercado apenas responde ao comportamento do consumidor, o que a falta de escolha entre filmes dublados e legendados revela sobre a maneira como estamos consumindo cultura?

E não duvide ou subestime, o cinema revela muito sobre determinada sociedade.

Miguel Flauzino

Jornalista e empresário, com atuação em marketing e vendas. Também produz análises sobre cultura pop e comportamento, com olhar crítico sobre tendências atuais.