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Pisar no chão que meus pais não pisaram

Atravessamos um chão onde nossos pais nunca pisaram, e essa travessia não tem mapa

por Aline Stones
Publicado há 3 horasAtualizado há 3 horas
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Filha que parte, mãe que fica.

Estudando psicanálise, comecei a compreender minhas crises de pânico não apenas como sintomas isolados, mas como sinais de um deslocamento profundo — um afastamento progressivo da cultura familiar que me formou. Ao ler Annie Ernaux e seu livro O lugar, encontrei palavras para algo que eu ainda não sabia nomear: o estranhamento de retornar simbolicamente à casa da infância depois de crescer não só em idade, mas em linguagem, pensamento e consciência.

Crescer é atravessar fronteiras invisíveis, acessar textos, ideias e análises da vida e da sociedade que criam uma distância silenciosa entre quem fomos e aqueles que permanecem no ponto de partida. Enquanto avanço, percebo que cada passo amplia a distância do olhar da minha mãe. Distancia meu corpo etéreo do lugar de origem.

Há uma angústia de separação mais elaborada, menos concreta do que a infância conhece. A solidão da mobilidade social carrega um paradoxo: avançar implica ver parte do mundo afetivo ficar para trás. Como se uma voz antiga sussurrasse: “você está indo longe demais”. E talvez esteja, sozinha. Olhar para trás e não encontrar mais a mãe como antes produz um tipo de desamparo difícil de explicar. Porque a mãe, nesse lugar psíquico, deixa de ser apenas a pessoa concreta e passa a representar o espaço de retorno, o território onde um dia tudo parecia compreensível.

Há algo irreversível em crescer. Atravessamos um chão onde nossos pais nunca pisaram, e essa travessia não tem mapa. Por vezes me sinto regressiva, como se fracassar fosse uma solução plausível para esse desconforto e sensação de deslocamento. Vou sem saber exatamente como ir, mas ainda assim vou. E, simultaneamente, vivo o movimento inverso: enquanto me afasto da origem, preciso aprender a deixar ir minha própria filha, que cresce e lentamente se desprende de mim.

A experiência se duplica - sou filha que parte e mãe que permanece. Entre ir e deixar ir, descubro que amadurecer talvez seja sustentar essa tensão: caminhar mesmo sem garantias, aceitar que toda separação carrega perda, mas também inaugura novos modos de existir no mundo.

O trabalho do cuidado não se limita à dimensão material; trata-se de uma atividade que exige refinados processos de elaboração interna e intelectual. São, sobretudo, as mulheres que vivenciam essas demandas, atravessando movimentos de elaboração e aperfeiçoamento de si enquanto sujeitas vivas, frequentemente desamparadas de apoio social e inseridas em um mercado de trabalho avassalador.

Aline Stones

Professora pedagoga; Doutoranda em educação pela UFSCar. Militante anticolonial. Membro do coletivo Mulheres na Política e Coletivo de mães Aldeia Inteira.