PIB, PIB per capita...?
Dependendo de quão desigual for esta relação PIB per capita x Renda per capita, maior será a certeza de que a riqueza produzida naquele local está se concentrando nas mãos de poucos

Há alguns dias, este Diário publicou reportagem sobre os números do PIB e do PIB per capita dos municípios que fazem parte da Região Administrativa de São José do Rio Preto, números esses relativos ao ano de 2023. A reportagem destacou, também, os dez municípios com os maiores PIB per capita do país, detalhando os motivos que contribuíram para a produção de suas respectivas riquezas.
No caso específico desta região, e apesar de possuir o maior PIB (R$ 26,4 bilhões) dentre os municípios que dela fazem parte, Rio Preto aparece ocupando a 30ª posição no ranking de PIB per capita. Vale lembrar que a região é composta por um total de 98 municípios. Com relação ao cálculo do PIB per capita, ele é bem simples: divide-se o valor do PIB anual pela população absoluta daquele mesmo ano. Como os números considerados foram os de 2023, como dito anteriormente, o PIB per capita de Rio Preto ficou em R$ 54,9 mil, e a população considerada foi de 490 mil habitantes.
Curiosamente, na região de Rio Preto, o município que apresentou o maior PIB per capita foi o de Ariranha (R$ 164,7 mil). Apesar do PIB de Rio Preto ser cerca de vinte e uma vezes maior do que o de Ariranha, a população de lá é de pouco mais de 7.600 habitantes. A riqueza em Ariranha, especialmente a oriunda do setor sucroalcooleiro, quando dividida pelo tamanho da população local é suficiente para proporcionar um PIB per capita três vezes maior do que o de Rio Preto. E por qual motivo estamos falando disso? Bem, uma das formas de se analisar a importância relativa de uma grandeza econômica, como é o caso dos chamados “agregados macroeconômicos”, se dá por meio da relação com a quantidade populacional. Por esta razão, é que surgiram indicadores como o próprio PIB per capita, o consumo per capita, a poupança per capita, entre outros.
Sem questionar a relevância desses indicadores, quando abordo essa temática em aula, faço questão de mencionar para os meus alunos um artigo publicado por Hélio Schwartsman, filósofo e jornalista, em 2010. No texto, ele dizia que utilizar indicadores compositórios é muito tentador, uma vez que muitos analistas são motivados a apontar um único número para traduzir diferentes aspectos que se pretende avaliar, visto que permitem a rápida comparação de elementos, estabelecimento de rankings, etc. No entanto, quando esses índices são combinados com outros indicadores, cria-se a possibilidade de análises que são mais condizentes com a realidade.
Por exemplo, dificilmente, o PIB per capita de um município corresponderá ao montante da renda de seus respectivos habitantes, como certamente ocorre em Ariranha e em Rio Preto. Dessa forma, não se deve confundir PIB per capita com Renda per capita. E, ainda, dependendo de quão desigual for esta relação PIB per capita x Renda per capita, maior será a certeza de que a riqueza produzida naquele local está se concentrando nas mãos de poucos, ao invés de ser distribuída, melhorando a condição de vida daquela população. Quando essa discrepância ocorre, evidencia-se um problema: o crescimento econômico não está contribuindo para o desenvolvimento econômico local.
E é para corrigir distorções como essa que as políticas públicas precisam ser elaboradas a partir da combinação de diversos índices e indicadores. Não há espaço para achismos ou interpretações superficiais de dados de natureza econômica ou social, os quais deveriam balizar as ações do Estado. As políticas públicas precisam ser eficazes, porque dependem de recursos públicos escassos, e, socialmente justas, porque é para promover o bem-estar social que o Estado existe.
Ademar Pereira dos Reis Filho
Doutor pelo IGCE-Unesp de Rio Claro e docente da Fatec Rio Preto