ARTIGO

Perplexidades

Tudo é barbárie e tudo continua, enquanto a nave espacial continua orbitando nosso satélite

por Wilson Daher
Publicado em 09/04/2026 às 01:25Atualizado em 09/04/2026 às 09:40
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Já vivi, como todos, dias alegres, dias tristes, dias contraditórios e, mais do que isso, como nunca, em 6/4/2026, um dia da contradição com absoluta perplexidade. Sabemos que nós, seres humanos, somos capazes de amar a música de Mozart, a literatura de Guimarães Rosa, a poesia de Cecília Meireles. Somos capazes de plantar e colher, de cuidar e curar, até de fazer justiça social, embora nisso ainda capenguemos.

Minha mente, quanto mais envelheço, me faz refletir sobre o cansaço do já vivido, do que fiz de útil ou de inaproveitável até estas beiradas dos quase 90 anos, mas quanto mais ainda me sinto lúcido para compreender e interpretar o mundo em que vivi e o mundo em que estou (ainda) vivendo, mais me locupleto desta perplexidade que já não deveria tomar conta do coração e da mente.

Hoje, sinto-me mais perplexo que Fernando Pessoa em suas estrofes da Tabacaria. É um dia em que me sinto vivendo o absurdo da vida, seu sentido, seu não sentido ante a visão quase delirante das notícias perplexas que vejo na TV. Estive ligado naquele momento em que a TV nos mostra a nave espacial da NASA atingindo a maior distância da Terra conseguida até hoje pelo ser humano: 401.600 km. Está praticamente preparada para orbitar a lua. Vejo com certo desdém e, ao mesmo tempo, fascinado pela tecnologia que está conseguindo tudo o que quer. Talvez até o que não queira, mas vá lá.

Mas de onde vem minha perplexidade? Enquanto a tela da televisão nos mostra fotos espaciais desta missão, mostrando a Terra como ela é (ou será como ela não é?), as notícias que rolam no rodapé, uma atrás da outra, informam sobre o desastre que ainda somos como pessoas e como civilização: ficamos sabendo que o Irã acaba de desalojar escolas e hospitais infantis para evitar o massacre dos bombardeios, com drones, mísseis, sei lá, não importa como. Importa o porquê. Assisto logo em seguida a uma coletiva do presidente Trump que, de forma peremptória, afirma que o petróleo do Irã é “dele” e que ele está preparado para destruir este país em uma noite. E que provavelmente esta noite estará bem próxima. A contrapartida do Irã, claro, não vem sob forma de carinho.

Não resisti à tentação de escrever esta crônica, sempre acho que será a última, mas nunca é. A busca de um significado para quem escreve coisas tão contraditórias não nos isenta do risco de parecermos parciais para qualquer um dos lados da questão. Jamais seria parcial ao descrever a violência, a barbárie de nossa pretensa civilização, que mesmo a IA não dará conta. A estupidez das guerras, a barbárie provocada pelos tiranos de regimes totalitários, a ausência de um olhar para dirimir ou atenuar as mazelas sociais, dando preferência às atitudes de corrupções desmedidas (alô Brasil), tudo continua entranhado em nossa pretensa civilização. Tudo é violência, tudo é barbárie e tudo continua, enquanto a nave espacial continua orbitando nosso satélite.

Tudo é perplexidade, seres humanos que somos, seremos sempre contraditórios nesta eterna luta entre o bem e o mal. Teria um sentido, na minha modesta opinião, se atingíssemos pelo menos o nível do razoável.

Wilson Daher

Psiquiatra, membro acadêmico da Arlec. Cronista