Pequenas histórias de um ex-ferroviário – 7ª parte
O Trem Caipira fazia muito mais do que transportar pessoas; mexia com a memória afetiva

No episódio anterior, abordei a importância da preservação do nosso Patrimônio Histórico. Tínhamos em mãos um desafio colossal: executar as obras necessárias para devolver a dignidade às nossas duas Estações Ferroviárias. Com recursos fundamentais oriundos do Ministério do Turismo, demos início às revitalizações da Estação de São José do Rio Preto (a pequena, inaugurada originalmente em 1912 e reconstruída em 1941) e da Estação do distrito de Engenheiro Schmitt (também datada de 1912). Era preciso resgatar o que o tempo e o abandono haviam deixado em péssimas condições.
Importante destacar que a chegada dos trilhos no início do século XX trouxe a modernidade e transformou Rio Preto no principal polo de escoamento agrícola da região. O atual prédio da estação sede, exemplo marcante da arquitetura Art Déco, é um símbolo desse progresso. Desde 2001, o local não recebia mais o movimento vibrante dos trens de passageiros. Por isso, as viagens mensais do Trem Caipira faziam muito mais do que transportar pessoas; elas mexiam com a memória afetiva de gerações que outrora dependiam dos trilhos para desbravar o mundo.
Para garantir a fidelidade histórica, contamos com uma especialista em restauro de Estações Ferroviárias que resgatou as plantas originais da estação de Rio Preto, identificando intervenções indevidas feitas ao longo das décadas. Com o projeto definido, as reformas avançaram e, por questões de segurança, as viagens do Trem Caipira precisaram ser temporariamente interrompidas, já que o canteiro de obras impossibilitava o embarque e desembarque de passageiros. Nesse período, a sinergia com a Secretaria de Obras e o apoio técnico do COMDEPHACT Municipal foram vitais para que cada detalhe arquitetônico fosse preservado.
Enquanto o som das picaretas e pincéis ecoava nas estações, nossa equipe não ficou parada. Aproveitamos a pausa nas viagens para aprimorar nossa capacitação, adequando toda a operação às novas NBR. Além da parceria com a Rumo, passamos a contar com a experiência inestimável da ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária). Foi também nessa fase que o município recebeu do DNIT a doação de três carros de passageiros da extinta FEPASA, reforçando nosso acervo.
A conclusão das obras transformou o antigo edifício no atual “Complexo da Estação Ferroviária de São José do Rio Preto”, abrigando o tão sonhado Museu Ferroviário. Para todos nós da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Negócios de Turismo, ver as estações restauradas e o museu ganhando vida foi a materialização de um projeto inédito e audacioso de resgate histórico em nossa região.
Este sentimento de missão cumprida e os detalhes da inauguração desse legado serão o tema central das nossas vivências no nosso EPISÓDIO FINAL. Preparem o coração para o desembarque dessa jornada! Acompanhe!
Arlindo Lima
Turismólogo, ex-coordenador do Projeto Trem Caipira e ex-chefe de trem.