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RADAR ECONÔMICO

Overtourism, quando a hospitalidade encontra limite

por Célia Gomes
Publicado em 11/08/2026 às 19:21Atualizado em 11/08/2026 às 19:26
Célia Gomes (Divulgação)
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O termo em inglês overtourism traduz o excesso de turistas em uma localidade e tem sido constantemente utilizado pela mídia com uma mensagem ampla, urgente e significativa. O fenômeno reflete os desafios de equilibrar o desenvolvimento econômico trazido pelos visitantes e a preservação da qualidade de vida das comunidades receptoras.

Países europeus possuem particularidades semelhantes, são geograficamente pequenos e muito próximos. A integração do continente, consolidada pela União Europeia e pela livre circulação de pessoas, facilitou a gestão de interesses políticos, de segurança e, sobretudo, financeiros. O continente europeu tornou-se um bloco forte, mantendo o peso de ser uma das regiões mais prósperas do planeta. Isto posto, entende-se que seus desafios no turismo são correlatos, exigindo soluções conjuntas, ágeis e articuladas.

No turismo europeu, alguns aspectos chamam a atenção pela proximidade, facilidade cambial e regras alfandegárias integradas, sendo perfeitamente viável conhecer vários países em poucos dias. Não por acaso, a maioria dos destinos mais visitados do mundo está na Europa. A França lidera o ranking da Organização Mundial do Turismo (OMT/ONU Turismo) por vários anos consecutivos. São 100 milhões de visitantes, seguido pela Espanha com 85 milhões, e os Estados Unidos, embora não sejam os que mais recebem turistas, é o que mais fatura.

Muitos destes países têm no setor turístico uma das principais fontes de receita. A título de conhecimento e reflexão, o Brasil ocupa a 39ª colocação no ranking global. Historicamente, o país flutua ao redor dessa posição devido a fatores como a grande distância geográfica dos principais mercados emissores de turistas (Europa e Ásia) e limitações de conectividade aérea internacional. Diferente de outras localidades, não incentivamos a atividade turística, portanto não colhemos os altíssimos retornos financeiros, fruto do desenvolvimento de políticas públicas, infraestrutura adequada e capacitação profissional.

Um destino turístico deveria funcionar como uma orquestra, cada músico realiza sua atividade independente, mas compõe um ecossistema integrado, tocando afinado de acordo com a partitura. No Brasil, esse conceito ainda carece de maturidade. Embora exista um Plano Nacional de Turismo, planos estaduais, regionais e locais, o país enfrenta severas dificuldades na implantação, gestão e crescimento do setor, não ultrapassando 9 milhões de visitantes. Um planejamento turístico é um compromisso coletivo entre o governo, iniciativa privada e a população.

Fazendo uma analogia da tradição clássica presente na Odisseia, de Homero, com uma das leis fundamentais da antiguidade, a Hospitalidade. Segundo a mitologia, era dever de todos acolher bem o estrangeiro, oferecendo-lhe alimento e abrigo. Esse princípio permanece como pilar essencial para o turismo em destinos sustentáveis.

Recentemente, acompanhamos, através dos noticiários, um movimento, embora seja pontual, mas revisita uma reflexão extremamente importante para os dias atuais. Cidades da Europa manifestam-se contrárias ao número elevado de turistas, hostilizando os visitantes com cartazes e demais objetos. Uma análise muito superficial nos remete à condição da invasão por estrangeiros, acarretando aumento do custo de vida, expulsando a população de suas moradias e outras perdas da rotina diária da população que vive nestes destinos.

Se, por um lado, o turismo traz impactos importantíssimos na economia, traz também impactos negativos se não for bem gerido. O fluxo descontrolado gera inflação, aumento do custo de vida e perda da identidade local. A recente criação de organismos de gestão sustentável, como o de Barcelona, busca gerir o setor de modo que não comprometa a qualidade de vida dos moradores, utilizando o estudo de Capacidade de Carga para determinar o limite de visitantes por temporada.

Em suma, o overtourism escancara que o crescimento ilimitado do turismo, o turismo de massa, é insustentável. O futuro da atividade dependerá do equilíbrio ético e planejado, no qual o lucro econômico não se sobreponha ao bem-estar das comunidades locais nem à preservação dos territórios. Não se resolve este impasse hostilizando a galinha dos ovos de ouro.

Célia Gomes

Membro do Conselho Municipal de Turismo