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Olhar 360

Ouvimos do Ipiranga

Recentemente, e infelizmente, a polarização política que se abateu sobre nós colocou o hino e a bandeira nacional, que deveriam ser símbolos para todos, em um lado do polo

por Monica Abrantes Galindo
Publicado em 11/07/2026 às 16:55Atualizado em 11/07/2026 às 16:56
Monica Abrantes Galindo (Divulgação)
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Monica Abrantes Galindo (Divulgação)
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Nossa escola era usada nas eleições. Tínhamos um portão direto para a rua e um hall que separava o acesso às salas de aula. Minutos antes do horário oficial de abertura dos trabalhos, abríamos só o portão de entrada e ligávamos o som com o hino nacional. Os mesários no corredor e as pessoas que aguardavam a abertura da votação, cantando o hino ou o ouvindo em um silêncio respeitoso, faziam uma pausa que beirava uma suspensão temporal mágica. Findo aquele lapso de tempo, a porta que dava acesso às salas de aula era aberta. A festa da democracia ganhava uma cerimônia de início.

Enquanto escrevia este texto, coincidentemente, recebi um artigo sobre rituais escrito por Paulo Nassar. O autor discute que nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão desejosos de desconexão. Os rituais, segundo o texto, são uma parada, uma interrupção, e tornam-se espaços de resistência. O ritual dos hinos nacionais é uma música que toca e a gente canta ou ouve. Suspende momentaneamente outros fazeres. Há os que colocam a mão no coração. Os rituais foram construídos para fazer com que os ausentes permanecessem presentes - pessoas ou pensamentos. Nassar nos lembra que o ritual, diferente dos algoritmos, não produz dados, produz significados.

Sobre nosso hino, lembro-me de quando o sabão em pó Rinso distribuiu um pequeno disco com o hino nacional e o hino da independência, em uma época em que essa valorização do nacional era um apelo do governo militar por apoio. As relações entre sabão e política não são uma novidade. Recentemente, e infelizmente, a polarização política que se abateu sobre nós colocou o hino e a bandeira nacional, que deveriam ser símbolos para todos, em um lado do polo. Nesse contexto, o ritual de cantar o hino nas cerimônias esportivas pode nos ajudar a diluir um pouco essa divisão.

Da Copa do Mundo não seremos campeões, mas não saímos zerados de vitórias. O jornal norte-americano The New York Times elegeu o hino nacional brasileiro como o mais bonito da Copa, concorrendo com 48 seleções. Levou nota nove dentro da máxima dez. Em segundo lugar ficou o hino francês e, em último, o hino inglês. O jornal destaca que nosso hino dura pouco mais de dois minutos e parece não ser suficiente; sua letra fala sobre não temer a batalha, sobre nossas belezas naturais e sobre uma pátria amada, além de ter uma gloriosa introdução orquestral.

Na letra do hino, um dos aspectos que nos une é o fato de sermos filhos dessa terra, Brasil. Independentemente de suas origens, talvez esse louvor a um território, a essa “mãe gentil”, possa nos remeter à relação que os nossos ancestrais indígenas têm com a terra, com o espaço, com o tempo, muito diferente da que temos normalmente vivido, em tempos de algoritmo, mas que, segundo Nassar, parece que estamos tentando mudar. O texto de Nassar é esperançoso. Teremos que ser filhos heróicos que não fujam e não temam também essa luta pela busca de significados internos para conseguirmos construir melhores significados futuros.

Monica Abrantes Galindo

É vice-diretora da UNESP de Rio Preto, professora, participante dos coletivos
Mulheres na Política e CDINN -Coletivo