Outro voto de gratidão
Devo muito a muitos colegas que, generosamente, me acolheram e me acrescentaram conhecimentos

Tempos atrás, publiquei neste espaço uma crônica (Um voto de gratidão) em que eu rememorava velhos membros da Arlec, aos quais agradecia pela oferta de ferramentas preciosas em todas as áreas do conhecimento, como literatura, filosofia, história, artes plásticas, música. Eram os tempos do Portela, do Alexandre Caballero, do Salvatore D’Onofrio, Coronado, enfim, tantos luminares da época que, por certo, se citados, preencheriam esta página.
Lembrei-me disso ao ler uma reportagem neste Diário, sobre um casal que sempre admirei pela sua tenacidade, pela gentileza na capacidade de acolhimento de quem chegava à cidade, em 1965, como ginecologista, em um período em que a cidade tinha pouco menos de 100 médicos em atividade. Penso que, como eu, muitos novatos chegavam por aqui, assustados com o noviciado frente a alguns ícones da época, como Oscar Dória, Milton Dias, Tácio Dória, Radovir dos Santos e muitos outros.
Quando me formei no Rio, em 1963, eu já estava acostumado à labuta diária em plantões de Pronto-Socorro e maternidades. Foi ali que fiz minha formação em Ginecologia e Obstetrícia e aqui cheguei como tal, operando e partejando até 1973, quando dei uma guinada para a especialidade de psiquiatria e psicoterapia fenomenológica.
Quando se chega como um estranho na casa de alguém e se percebe a acolhida generosa de quem nos recebe, nosso sentimento de gratidão nunca se exaure. Fui recebido com esta generosa acolhida pela nossa Santa Casa de Misericórdia, trabalhando exaustivamente na ala dos indigentes (ainda não havia o SUS), com o mesmo espírito de trabalho que dedicava aos outros pacientes. Com o tempo, fui conhecendo as regras e as tretas da cidade, a maneira de ser de cada colega de profissão, coisas tão necessárias para um iniciante na prática médica em uma cidade que já oferecia as perspectivas de um bom centro médico de nosso Estado.
Aos poucos fui me soltando e até voando para novos ares, como foi o caso de ter meu ingresso permitido na antiga Maternidade Nossa Senhora das Graças, onde também trabalhei com partos e cirurgias ginecológicas.
Quando li a reportagem de semanas atrás, neste jornal, enfocando a figura do casal Aniloel e Raquel Nazareth, ele na completude de seus 100 anos de idade e ela um pouco mais novinha (99), não resisti à tentação de reavivar minhas lembranças deste casal que (talvez nem eles saibam) tanto me ajudou na superação de medos próprios de um médico jovem que, embora tarimbado nos plantões suburbanos do Rio de Janeiro, tinha agora que enfrentar uma nova realidade, em uma cidade mais exigente em conhecimento e disponibilidade.
Devo muito a muitos colegas que, generosamente, me acolheram e me acrescentaram conhecimentos e técnicas para que eu pudesse evoluir dentro de minha especialidade. E devo muito a este casal, a Dra. Raquel, como primeira médica anestesista da cidade, e o Dr. Aniloel, que me auxiliava sem ônus nos momentos mais difíceis de minha trajetória daquela época.
Daqui, então, meu voto de reconhecimento e gratidão. Assim como os velhos pensadores e ícones de todas as artes, citados anteriormente, com quem muito aprendi, também com os médicos citados, e hoje em especial à Raquel e ao Anilioel, devo minhas melhores recordações de um tempo vivido e não esquecido.
Dr. Wilson Daher
Psiquiatra aposentado, membro da Arlec.