Os lobos que habitam em nós
Somos o reflexo daquilo que cultivamos por dentro; ninguém nasce inteiramente bom ou mau

Conta uma antiga parábola indígena que dentro de cada homem há dois lobos; um vive nas sombras, alimentando-se do medo, da raiva e do desespero; o outro habita na luz, nutrido pela esperança, pela compaixão e pela fé; eles travam uma batalha silenciosa, dia após dia, dentro de cada coração humano. E quando o discípulo pergunta ao velho sábio qual dos lobos vence, ele responde com serenidade e simplicidade: — Vence aquele que você alimenta.
Essa história, curta mas de grande significado, é uma verdade eterna que revela um segredo profundo da condição humana — somos o reflexo daquilo que cultivamos por dentro, e nenhum homem nasce inteiramente bom ou mau; mas sim o que nos define é o alimento que damos às nossas emoções, pensamentos e atitudes.
Conhecer qual dos lobos estamos alimentando, ou seja, conhecer a nós mesmos, pode nos ajudar a compreender porque nossas vidas estão seguindo determinado caminho, seja do bem, seja do mal, e nos ajudar a viver com mais propósito e significado.
O lobo do desespero se alimenta da pressa, da inveja, da crítica e da falta de propósito, ele cresce quando deixamos que a vida nos endureça e nos faça esquecer o que realmente importa. Já o lobo da esperança nasce do silêncio interior, da prática do amor, da capacidade de enxergar o bem mesmo em meio ao caos, ele não é ingênuo — é resiliente; não nega as trevas, mas aprende a caminhar mesmo sob a noite mais escura da alma.
No fundo, essa luta é a essência da jornada humana e, em muitos aspectos, é a base da construção moral e espiritual que a ordem tanto ensina, ou seja, o combate constante entre a pedra bruta e a pedra polida, entre o homem que reage e o homem que reflete.
Alimentar o lobo certo não é tarefa fácil, quem disse? Exige vigilância, humildade e vontade de melhorar um pouco a cada dia, todavia é nesse esforço que reside o verdadeiro crescimento humano e espiritual.
O que de maior significância nos traz esta parábola é que somos responsáveis pelas nossas ações e atitudes no mundo com as pessoas que nos cercam; saber alimentar o lobo certo é uma decisão muito difícil que deve ser executada a todo momento; alimentar o lobo do mal, com raiva, ódio, rancor e desespero é o caminho mais fácil e curto, todavia errado. Já o lobo bom, esse sim é de extrema dificuldade e o caminhar longo, entretanto a única decisão correta.
Afinal, no fim das contas, o que realmente aprendemos é que a alma de um homem é o banquete de seus lobos — e só ele escolhe quem vai saciar. E você qual lobo irá alimentar hoje?
Gilson Ribeiro
Contador, cronista, poeta e membro da Academia Maçônica de Letras e Cultura do Noroeste Paulista.