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ARTIGO

Os dois pés na senzala

Homenagear os escravizados e seus descendentes é, para mim, um exercício de memória viva

por Jocelino Soares
Publicado há 1 hora
Jocelino Soares (Jocelino Soares)
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O 13 de maio que se avizinha costuma ser dia de olhar para as correntes partidas de 1888. Mas, para quem traz os dois pés fincados na senzala e o coração batendo no ritmo das matas, a liberdade é uma conquista que se renova a cada amanhecer. Minha história não começa em livros oficiais, mas no grito mudo dos indígenas Goytacazes, lá pelas bandas do Espírito Santo, onde o homem branco decidiu que o destino de um povo era o esquecimento.

Minha avó paterna, Maria Olegária, foi testemunha do fim do seu mundo aos oito anos de idade. Enquanto sua tribo era dizimada, ela — pequena e ágil como uma cutia — embrenhou-se na mata fechada. Fugia da morte, carregando o trauma que nenhuma criança deveria conhecer. Foram cinco dias de solidão verde, caminhando entre o medo e a sobrevivência, até que o destino a levou a uma choupana.

Ali, o refúgio revelou-se outra forma de cativeiro. Acolhida não pelo amor, mas pela exploração, ela dizia com amargura: "Antes tivesse sido morta pelos homens". Naquele casebre, foi tratada como escravizada, conhecendo o peso da servidão quando ainda deveria brincar. Mas o sangue Goytacaz não aceita cabresto. Fugiu novamente, desta vez com os olhos postos no horizonte de Volta Redonda.

No Rio de Janeiro, a menina-mulher encontrou meu avô Victorino e, aos treze anos, uniu-se a ele para enfrentar a vida. Ele era preto, filho de escravizados, nascido em pleno regime servil. Segundo meu pai, era um negro alto, forte, de dentes perfeitos. Fora escolhido como "reprodutor", mas sua mente subverteu o destino: muito inteligente, foi preceptor, enfermeiro e um grande contador de causos, além de servir na Guerra do Paraguai.

O destino seguinte foi o nosso Noroeste Paulista. Vieram como tantos outros: a esperança na mala e a força nos braços para o eito do café. Plantaram a vida nas covas da terra vermelha, regando os cafezais com o suor de quem sabia o valor de cada palmo de chão.

Homenagear os escravizados e seus descendentes neste 13 de maio é, para mim, um exercício de memória viva. Quando olho para as lavouras e para a cultura que tanto defendemos, enxergo as mãos dela. O Brasil foi forjado nesse caldeirão de dores e superações. Celebrar essa data é honrar o silêncio daquela menina na mata e o grito de vitória de quem, apesar de tudo, escolheu continuar caminhando. A liberdade é uma estrada que começamos a trilhar muito antes de nascermos. Digo com orgulho: tenho os dois pés na senzala!

Jocelino Soares
Artista plástico, pós-graduado Arte-educação e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura.