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ARTIGO

Os danos da desconfiança

A erosão da confiança institucional traz consequências que ultrapassam o campo político

por Simone Cristina Succi
Publicado há 6 horasAtualizado há 6 horas
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Relendo O Alienista, de Machado de Assis, vejo como o descrédito nas instituições públicas brasileiras não é um fenômeno novo. Crises políticas, escândalos recorrentes e o distanciamento entre Estado e sociedade já afeta o Brasil desde sempre, embora hoje se apresente com intensidade particular. Machado de Assis, nesse conto, mostra de forma aguda como o poder institucional pode corromper sua finalidade e comprometer a confiança coletiva, sobretudo quando não é questionado.

Na narrativa, o médico Simão Bacamarte funda a Casa Verde — uma instituição psiquiátrica na pequena cidade fictícia de Itaguaí — com o propósito de estudar a loucura. Resguardado pelo seu prestígio, ele passa a internar os moradores da cidade, seguindo seus próprios critérios do que considera loucura e sanidade. O que se apresentava, a princípio, como um projeto legítimo de investigação médica, transforma-se, pouco a pouco, em um exercício arbitrário de poder. A população de Itaguaí, que inicialmente confia no médico e na instituição, passa a desconfiar de suas decisões, mas, de tão envolvidos, não conseguem reagir, por acreditar que o médico, como autoridade, não poderia estar errado.

Esse quadro parece dialogar muito com o cenário contemporâneo brasileiro. O descrédito nas instituições públicas não é algo subjetivo e, sim, a constatação das experiências que destroem a confiança social. Casos de corrupção, ineficiência administrativa e a sensação de impunidade contribuem para a ideia de que as instituições deixaram de servir ao interesse público e passaram a operar, muitas vezes, em benefício de grupos restritos ou de si mesmas.

Entretanto, a erosão da confiança institucional traz consequências que ultrapassam o campo político. Ela compromete o próprio funcionamento da democracia, que depende da crença na legitimidade de suas estruturas. Sem essa base, cresce a adesão a discursos simplificadores, que prometem soluções rápidas e, muitas vezes, autoritárias. O risco, como sugere a ironia machadiana, é aceitar novas formas de arbitrariedade justamente em nome de corrigir as antigas.

Além disso, vale lembrar que instituições não são apenas mecanismos burocráticos, mas espaços de organização da vida coletiva. E, quando essas instituições perdem credibilidade, fragiliza-se a ideia de pertencimento social, pois deixamos de nos perceber como parte de um projeto comum e passamos a encarar o Estado como uma instância alheia, e até adversária.

Reconstruir a confiança nas instituições públicas exige mais do que reformas estruturais. É necessário que elas sejam transparentes, responsáveis e, sobretudo, próximas da sociedade.

A crítica de Machado de Assis permanece, assim, profundamente atual. Entre a confiança cega e o descrédito absoluto, é fundamental uma postura vigilante e crítica para preservar, de alguma forma, os fundamentos da vida democrática.

Simone Cristina Succi

Doutora em Linguística Aplicada, professora e redatora de materiais didáticos.