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Os apuros de seu Theófilo

Seu Theófilo imaginou que seria abordado com um daqueles simpáticos “posso ajudar, senhor?”

por Eurípides A. Silva
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
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De uns tempos para cá, o setor supermercadista brasileiro tem alardeado a importância de seus programas de capacitação de funcionários, focados na diferenciação pela excelência no atendimento ao cliente e não apenas pelo preço. Mais precisamente, investindo no conceito de que “o diferencial humano, muitas vezes, impede o cliente de migrar para a concorrência por centavos de diferença”. (Sexagenários, septuagenários, octogenários, agradecem!)

Esses programas, claro, não vingam sem o real comprometimento dos funcionários para com detalhes simples que favorecem a fidelização de clientes, como o auxílio na localização de produtos e a disposição para o transporte e devolução dos carrinhos. (A propósito, grandes redes supermercadistas já disponibilizam carrinhos projetados para serem conectados a cadeiras de rodas, conferindo maior autonomia às pessoas com mobilidade reduzida. Sinal dos tempos!)

Como justificativa para este breve introito, segue a história prometida. Seu Theófilo, chegando ao supermercado, por sorte, encontrou uma vaga para cadeirante. Estacionou o carro e, com a ajuda de sua fiel “Gertrudes” (sua muleta canadense), iniciou seu périplo (uma quase odisseia) pelos longos corredores do estabelecimento, ladeados por balcões, gôndolas e prateleiras. Atento à lista que tinha em mãos, depois de escolher frutas, verduras, legumes e carnes, ao passar pelo caixa notou a presença de um jovem funcionário, distraído com o celular.

Seu Theófilo, sob o peso dos 80 anos, exausto, imaginou que seria abordado com um daqueles simpáticos “posso ajudar, senhor?”. Que nada! O jovem permaneceu imóvel. Decepcionado, seu Theófilo não quis deixar por menos e optou por fazer um pequeno teatro.

Ao levar as compras para o seu carro, caprichosamente foi passando as rodas do carrinho, aos trancos, pelos buracos do asfalto do estacionamento para aumentar o barulho e, com isso, chamar a atenção do jovem funcionário. Ele, porém, nem tchum: permaneceu indiferente!

Em seguida, frustrado na sua intenção, seu Theófilo entrava no carro quando o improvável aconteceu: um cliente, indignado com a cena que acabara de assistir, manifestou-se em alto e bom brado, para quem o quisesse ouvir: “Fosse meu funcionário, estaria despedido!”.

Seu Theófilo, antes de deixar o estacionamento, ainda teve tempo de saudar o atento cliente com um leve aceno de cabeça e um “muito obrigado, senhor!”. Ato contínuo, voltando-se para sua companheira, celebrou o gesto solidário: “Gertrudes... o mundo não está perdido como dizem!”.

Eurípides A. Silva

Mestre e doutor em Matemática pela USP, aposentado pelo Ibilce, campus da Unesp em S. J. do Rio Preto.