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ARTIGO

Ormuz: pequeno no mapa, gigante na geopolítica

Pelo Estreito de Ormuz passam entre 20% e 30% de todo o petróleo comercializado no mundo

por Ligia Maura Costa
Publicado há 3 horasAtualizado há 3 horas
Ligia Maura Costa (Ligia Maura Costa)
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O mundo discute intensamente um ponto de dimensões diminutas no mapa, como o Estreito de Ormuz. Para muitos, até então um nome distante, ele se tornou o principal fator por trás da disparada dos preços dos combustíveis e de um choque energético capaz de pressionar a inflação, os juros, frear o crescimento e pressionar a ordem política internacional. Ormuz deixou de ser apenas uma referência geográfica e passou a funcionar como instrumento de poder geopolítico no recente conflito entre Irã e Estados Unidos e Israel. O fechamento do estreito, uma das rotas estratégicas para o fluxo energético mundial, expôs a vulnerabilidade econômica global.

Como um estreito tão pequeno pode influenciar de forma tão profunda a economia mundial? A resposta está nos números: por Ormuz passam entre 20% e 30% de todo o petróleo comercializado no mundo, além de grande parte dos seus derivados. O estreito também é vital para o escoamento de gás natural liquefeito, o que amplia sua relevância estratégica.

Diante desse cenário, o petróleo e o próprio Ormuz se transformaram em peças centrais na dinâmica geopolítica do atual conflito. O que se vive hoje não é uma crise energética, como muitos imaginam, mas uma crise geopolítica com efeitos diretos sobre o preço da commodity mais influente das economias modernas. E isso muda completamente a natureza do problema.

No caso do Brasil, embora o país tenha menor dependência do petróleo do que outras nações, os impactos chegam por outra via: o agronegócio, motor da economia brasileira. O petróleo é fundamental na produção de fertilizantes, insumo indispensável para o plantio, e especialistas já alertam que os efeitos de Ormuz não se limitarão à safra atual, podendo comprometer também a próxima. É motivo de preocupação para a economia brasileira que já opera com juros elevados e enfrenta desafios estruturais mesmo sem esse choque externo.

O fato é que, quando o Estreito de Ormuz fecha, o impacto se espalha pelo mundo e, inevitavelmente, essa conta chega à população. O resultado é uma pressão inflacionária sobre os insumos, alimentos e transporte. Outro efeito é a desaceleração do crescimento, que tende a reduzir ainda mais as já modestas taxas de expansão do PIB brasileiro.

Diante desse cenário, como lidar com essa situação que colocou a economia mundial em posição vulnerável? Uma possibilidade discutida por especialistas é a formação de uma coalizão internacional, para criar um modelo de governança multilateral no Estreito de Ormuz, sem que um único país detenha o controle desse ponto geográfico tão sensível. Pode soar utópico, mas, no momento, o que resta à comunidade internacional é a diplomacia, já que o uso da força até aqui não trouxe resultados eficazes.

Ligia Maura Costa

Advogada, integrante do Conselho Global do futuro sobre Boa Governança do Fórum Econômico Mundial, professora titular na FGV EAESP.