Diário da Região
RADAR ECONÔMICO

Orgulho de ter diploma

É justamente essa capacidade de adicionar valor que possibilitou que países como a Coreia do Sul, cuja área é equivalente a de Pernambuco, tivesse um PIB quase igual ao do Brasil

por Ademar Pereira dos Reis Filho
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Ademar Pereira dos Reis Filho (Divulgação)
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Ademar Pereira dos Reis Filho (Divulgação)
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Trabalhar como docente no Ensino Superior tem sido uma tarefa cada vez mais desafiadora. Sempre que um semestre se inicia, os professores têm consciência de que, além da missão de transmitir os conteúdos próprios de suas respectivas disciplinas, terão um papel decisivo na formação de futuros cidadãos, capazes de tornar o mundo um lugar melhor. E essa outra tarefa não tem sido fácil por muitos motivos. É frustrante para docentes, por exemplo, ter que conviver diariamente com a ignorância que emana de certos políticos, governantes e de pseudo gestores da educação que pregam a “inutilidade” do diploma de graduação, que zombam da ciência e, principalmente, questionam a legitimidade de pesquisas desenvolvidas ao longo de décadas. Como agravante, acrescente-se que essas demonstrações descabidas de ignorância ecoam e, por vezes, ganham força em quinhões da sociedade nos quais a cidadania e o conhecimento não são bem-vindos.

No caso específico da formação superior, a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), é responsável pela publicação de um relatório anual denominado IASE (Indicador Abmes/Simplicity de Empregabilidade). O relatório publicado no último semestre de 2025, foi produzido a partir de dados coletados por pesquisa realizada com 8.843 alunos egressos, de 79 instituições de Ensino Superior do país. Conforme o relatório, a conclusão do curso de graduação aumentou em 81% a renda média dos egressos. Outro destaque foi que a renda desses egressos era 46,5% maior em relação à média da nacional. É preciso considerar, ainda, que a formação superior não impacta somente na renda. Ela é o pré-requisito para que o conhecimento se transforme em avanços científicos e pesquisas que contribuirão para o contínuo desenvolvimento econômico e social das nações.

No entanto, para o Ensino Superior poder cumprir seu papel, é preciso que o sistema de educação básica oferecido pelo país seja tratado como uma das prioridades que fazem parte do conjunto de políticas públicas. Essa relação indissociável entre o Ensino Básico e o Superior pode ser comprovada pelo método PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), organizado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na avaliação realização em 2022, entre os dez países mais bem avaliados estão, por exemplo, China, Singapura, Japão, Coreia do Sul, Canadá, Finlândia e Reino Unido. Não é por acaso, portanto, que esses países são referência em desenvolvimento tecnológico e científico. Além disso, em nenhum deles o Ensino Superior é ridicularizado.

Por fim, para um docente de Economia, como é meu caso, além de ter orgulho de possuir diploma de graduação, me orgulho de poder transmitir os conhecimentos previstos nos conteúdos programáticos da disciplina. De demonstrar como a justiça social é fundamental para o desenvolvimento econômico de um país, bem como, de cumprir minha função de lembrar aos discentes que o conhecimento leva ao avanço científico que, por sua vez, se traduz em inovação e novas tecnologias. E são essas últimas que adicionam valor a produtos e serviços.

E é justamente essa capacidade de adicionar valor que possibilitou que países como a Coreia do Sul, cuja área é equivalente a do Estado de Pernambuco, tivesse um PIB quase igual ao do Brasil (conforme o FMI, o PIB de 2025, estimado para o Brasil, foi de US$ 2,31 trilhões, e o da Coreia do Sul, foi de US$ 1,95 trilhão).

A grande diferença entre Coreia do Sul e Brasil é que, naquele país, nenhum governante zomba do Ensino Superior. Por aqui, além de afirmar que ter diploma de graduação não é importante, certos governantes querem tornar professores quem escreve “descançar” e “continêcia”… Aí fica difícil.

Ademar Pereira dos Reis Filho

Doutor pelo IGCE-Unesp de Rio Claro e docente da Fatec Rio Preto