ARTIGO

Opiniões demais, reflexões de menos

O problema surge quando a opinião substitui o trabalho de compreender a complexidade dos fatos

por Arnaldo F. Vieira
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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Basta abrir qualquer rede social para perceber que vivemos um tempo curioso. Nunca se falou tanto, nunca se opinou tanto, nunca se comentou tanto. E, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos refletido tão pouco. Entre curtidas, compartilhamentos e vídeos de poucos segundos, consolidou-se um fenômeno que hoje começa a ser discutido com mais seriedade: o opinionismo e a comentocracia.

O opinionismo é a crença de que toda opinião tem o mesmo peso, independentemente de lastro, estudo ou responsabilidade. É a transformação da impressão pessoal em verdade pública. Não se trata de negar o direito de falar, que é pilar da democracia, mas de perceber que a multiplicação de vozes não significa, necessariamente, qualificação do debate. Nas redes, especialistas instantâneos surgem a cada novo tema, da geopolítica à medicina, da economia ao futebol, todos com convicções inabaláveis e argumentos, muitas vezes, frágeis.

Já a comentocracia é um passo além. Não está apenas nas redes, mas também nos meios tradicionais de comunicação. Trata-se do protagonismo exagerado dos comentaristas, que passam a pautar o debate público com análises rápidas, frequentemente mais baseadas em posicionamentos prévios do que em fatos consolidados. A opinião ocupa o espaço que antes era da reportagem, da investigação, da apuração cuidadosa. O comentário antecede o acontecimento.

O resultado é um ambiente em que o ruído supera a informação. A política vira espetáculo, a indignação se torna produto e o algoritmo premia o exagero. O cidadão, exposto a uma enxurrada de interpretações conflitantes, sente-se mais confuso do que esclarecido. Forma-se uma sensação permanente de crise, alimentada por opiniões que competem entre si por atenção.

É evidente que o comentário tem seu valor. Ele contextualiza e interpreta, ao mesmo tempo que provoca diversas reflexões. O problema surge quando a opinião se torna um atalho para substituir o trabalho de compreender a complexidade dos fatos. Democracia não é apenas liberdade de expressão. É também responsabilidade na expressão.

Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja calar vozes, mas reaprender a ouvir com critério. Em meio à abundância de opiniões, torna-se urgente resgatar o valor da informação bem apurada e da reflexão ponderada. Porque falar é fácil. Difícil (e necessário) é compreender.

Arnaldo F. Vieira

Professor universitário, doutor e mestre em Comunicação e Cultura, ex-Diretor Geral da Câmara Municipal e do Procon Rio Preto.