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RADAR ECONÔMICO

O Turismo como Estratégia de Sobrevivência Existencial

por Célia Gomes
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Célia Gomes (Divulgação)
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Estamos vivendo sob o peso de uma vida massificante. São obrigações que se acumulam em camadas profissionais, sociais, acadêmicas, religiosas e familiares, criando uma rotina em que o indivíduo muitas vezes se sente reduzido a uma função produtiva. A rotina massificante cria o vazio de significado. Na sociologia contemporânea, refere-se a uma condição social e cultural onde as estruturas tradicionais (religião, família, tradições) perderam a força para dar sentido à vida, resultando em tédio, alienação e busca frenética por sentido. É uma sensação de falta de propósito, frequentemente descrita como um buraco emocional no cotidiano.

Neste contexto, o turismo surge como ruptura necessária para a satisfação abundante mencionada por estudiosos do setor; uma ruptura necessária com a mediocridade do cotidiano, a fuga da engrenagem. O deslocamento físico para cenários naturais ou culturas radicalmente diferentes quebra a sensação de “enclausuramento” das metrópoles e das rotinas digitais, tornando o horizonte aberto para o autoconhecimento. A viagem serve de laboratório para o autoconhecimento e para a retomada da liberdade individual.

Viajar permite que o indivíduo deixe de ser o funcionário, o pai/mãe ou o estudante para ser apenas um observador anônimo, aliviando o peso das expectativas éticas e morais. Enquanto a vida cotidiana é pautada por obrigações (o “ter que fazer”), a viagem é o domínio do desejo (o “querer fazer”). Enquanto viaja, a pessoa retoma as rédeas do seu tempo, estabelece sua autonomia. Escolher o caminho, o que comer e onde caminhar é um exercício de soberania pessoal que a vida profissional muitas vezes sufoca.

Ao cruzar uma fronteira ou embarcar em um voo, o viajante deixa para trás as etiquetas sociais. No deslocamento, o gerente, o estudante ou o provedor dão lugar ao explorador. É nesse anonimato temporário que a liberdade encontra espaço para respirar. Todavia, o conceito de viagem está passando por uma metamorfose silenciosa, mas profunda. Se em décadas passadas o turismo era definido pela ostentação de destinos ou pelo simples descanso anual, hoje ele se consolida como o antídoto para uma sociedade exausta. O que move o viajante contemporâneo não é mais apenas a curiosidade geográfica, mas um fenômeno sociológico urgente: o escapismo.

A busca não é mais apenas pelo que está fora, mas pelo que a experiência desperta dentro. Ao enfrentar o desconhecido, o idioma diferente ou a solidão de uma trilha, o indivíduo é forçado a confrontar seus próprios limites e preconceitos, algo que a zona de conforto da rotina urbana raramente permite. Ao sair da zona de conforto, o viajante é obrigado a encarar seus medos, preconceitos e limites. Isso gera um espelho que a mediocridade do cotidiano esconde, podemos chamar de desconforto produtivo.

A grande mudança de paradigma reside na troca do entretenimento vazio pela qualidade de vida. O setor turístico observa o crescimento de destinos que oferecem mais do que paisagens: oferecem silêncio, introspecção e o chamado slow travel (viagem lenta), ou o contato com a natureza, são ferramentas de busca pela qualidade de vida e saúde mental. Não é exagero afirmar que o turismo moderno é uma extensão das políticas de bem-estar. Em um mundo pautado por telas e prazos cruéis, a ânsia por liberdade manifestada no desejo de viajar é, na verdade, um grito por saúde mental.

O deslocamento físico serve como um reset psicológico. Entender que o mundo é vasto e as obrigações sociais são apenas uma parte da existência ajuda a redimensionar os problemas cotidianos. O turismo, portanto, deixou de ser supérfluo para se tornar uma necessidade vital de reconexão com a própria essência e com a vida que pulsa fora dos escritórios e das obrigações morais. Neste sentido, o turismo contemporâneo deixou de ser uma pausa no calendário para se tornar uma estratégia de sobrevivência emocional e existencial.

Viajar hoje é um investimento em saúde e qualidade de vida, uma forma de reencantar a existência.

Célia Gomes

Membro do Conselho Municipal de Turismo (Comtur)