O tronco ao lado
Enquanto eu me sentava sobre meu tronco, meu pai passava a noite inteira acordado

Sempre que alguém conta — ou sempre que eu mesmo me recordo — da antiga lenda Cherokee sobre o ritual de passagem, é impossível que minha memória não caminhe, quase automaticamente, até a figura de meu pai.
A história é simples, como eram os homens de outros tempos; um pai que leva o filho ainda adolescente à floresta, cobre-lhe os olhos e o deixa ali, sozinho, sobre um tronco, durante toda a noite, afim de que ao raiar do sol ele tenha se tornado um homem. O medo, o desconhecido, os ruídos da escuridão, o vento que açoita as árvores e o coração, os predadores que podem atacar, tudo conspira para o desmoronamento, mas o jovem permanece, e, ao amanhecer, descobre aquilo que jamais soube durante a noite inteira — o pai esteve ali o tempo todo, sentado ao seu lado, guardando-o em silêncio.
Essa lenda, embora ancestral, tem o peso de uma verdade universal, pois ela fala menos de um ritual indígena e mais da essência da paternidade, fala de uma presença que não se impõe, não se anuncia, não busca aplausos, uma presença que protege sem alarde, que sustenta sem fazer ruído, e é justamente aí que meu pai habita essa história.
Meu pai não era um homem de se fazer notar, não precisava estar no centro, nem ser lembrado a todo instante, mas, quando menos se esperava, ele estava lá, cuidando, protegendo, segurando as estruturas invisíveis que mantinham nossa casa de pé, muitas vezes, sem que percebêssemos.
Enquanto eu, como o jovem da lenda, sentava-me sobre meu tronco — às vezes assustado, às vezes confuso, às vezes achando que estava só —, meu pai passava a noite inteira acordado. O tronco dele não era confortável — eu sabia —, era um toco cheio de espinhos, de cansaço, de dores caladas, um tronco feito de sacrifício diário, de renúncias silenciosas e de um amor que não pedia reconhecimento.
A mãe ama de forma declarada, visível, incontestável, o amor materno se derrama, acolhe, envolve, já o amor do pai costuma ser diferente, parece distante, às vezes duro, quase ausente, mas é um amor que sustenta no invisível, um amor que aparece no instante exato em que tudo poderia ruir — mesmo que ninguém veja.
Meu pai sofreu, eu sei, sofreu para manter nossa casa firme, nossa dignidade intacta, nosso futuro possível, e, ainda assim, nunca reclamou, nunca se colocou como vítima, suportou até o último suspiro, fiel ao papel que escolheu cumprir — o de sentinela.
Por isso, toda vez que essa lenda é contada, ela deixa de ser apenas uma história antiga, ela ganha rosto, nome e memória, ela se transforma na imagem de um homem sentado ao meu lado, na escuridão da vida, mesmo quando eu não sabia. Um pai que nunca precisou dizer “estou aqui”, porque sempre esteve.
E talvez seja essa a maior herança que um pai pode deixar — a certeza tardia, porém eterna, de que nunca estivemos sozinhos.
Gilson Ribeiro
Contador, cronista, poeta e membro da Academia Maçônica de Letras e Cultura do Noroeste Paulista