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ARTIGO

O tempo gravado em nossas células

Imagine estimar a idade de uma pessoa apenas pelo DNA deixado na cena de um crime

por Fábio Rogério de Moraes
Publicado em 10/08/2026 às 18:38Atualizado em 10/08/2026 às 18:42
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Sempre houve marcadores de velhice na nossa sociedade. Não é difícil apontar alguém com cabelos grisalhos e assumir que se trata de uma pessoa mais velha. No entanto, cabelos brancos não são bons marcadores do envelhecimento, afinal existe grande variação na idade em que começam a aparecer. Por isso, a ciência busca biomarcadores capazes de indicar se alguém está envelhecendo mais rápido ou mais devagar do que o esperado, muito mais por questões de saúde do que de estética.

Um dos métodos mais difundidos é a bioimpedância, que estima a idade corporal passando uma corrente elétrica de baixa intensidade pelo corpo e medindo sua resistência e reatância. A partir desses dados, são estimados valores como água corporal total, massa magra, massa gorda, massa muscular esquelética e taxa metabólica basal. Conhecendo a idade da pessoa, o sistema compara esses resultados com os de uma população de referência e estima se seu corpo parece mais velho, mais jovem ou compatível com sua idade.

Com equipamentos mais sofisticados, novas métricas surgiram. Uma delas é baseada na epigenética, isto é, nas modificações químicas que regulam a atividade do DNA ao longo da vida. O geneticista Steve Horvath, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, foi um dos primeiros a demonstrar que o perfil epigenético, analisando mais de 350 regiões regulatórias do DNA, permite estimar a idade biológica com grande precisão. Esses marcadores registram parte da história das nossas células: exposição a toxinas, uso de medicamentos e até períodos prolongados de estresse podem alterar esse perfil. A descoberta abriu novas possibilidades, inclusive para a ciência forense. Imagine estimar a idade de uma pessoa apenas pelo DNA deixado na cena de um crime.

Apesar da precisão, esse método não informa necessariamente quão saudável alguém está. Outro biomarcador promissor utiliza imagens de ressonância magnética para analisar a estrutura e a conectividade do cérebro. O trabalho liderado por Mahdi Moqri, biólogo computacional da Universidade Harvard, investiga como características como a espessura do córtex cerebral e o volume de substância cinzenta se relacionam com o envelhecimento, permitindo estimar não apenas a idade do cérebro, mas também sua velocidade de envelhecimento.

Essas são apenas duas das muitas abordagens que a ciência desenvolve para compreender melhor nossa saúde. Ainda assim, o biomarcador mais importante continua sendo a forma como tratamos nosso próprio corpo e nossa mente. Cuidar de si mesmo ainda é algo que nenhuma pílula ou tecnologia conseguiu substituir.

Fábio Rogério de Moraes

Físico, Auxiliar de Pesquisa, IBILCE - UNESP.