Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
ARTIGO

O som dos meus passos

Hoje acredito que minha maior responsabilidade é fazer perguntas

por Marina Torrente
Publicado em 24/07/2026 às 19:16Atualizado em 24/07/2026 às 19:20
Diário da Região
Galeria
Diário da Região
Ouvir matéria

Há mais de trinta anos caminho pelos corredores de uma escola. Curiosamente, hoje percebo que muitas pessoas reconhecem minha chegada antes mesmo de me verem. Não é raro ouvir alguém dizer que identificou o barulho do meu salto. Logo depois, uma porta se abre, uma criança corre em minha direção para um abraço de “bom dia”, um professor aproveita o encontro para dividir uma conquista ou uma preocupação, uma família sorri ao me encontrar no corredor.

Com o tempo, compreendi que não é o som dos meus passos que as pessoas reconhecem. É a presença. E talvez seja justamente aí que mora a essência da educação em que acredito.

Durante muitos anos pensei que meu papel era encontrar respostas. Hoje acredito que minha maior responsabilidade é fazer perguntas, enxergar possibilidades e lembrar as pessoas de algo que, às vezes, elas mesmas esqueceram: o potencial que carregam dentro de si.

Acredito nas crianças antes mesmo de elas descobrirem tudo o que são capazes de aprender. Acredito nos professores quando um planejamento não dá certo ou quando o cansaço insiste em esconder seus talentos. Acredito nos pais e nas mães que, entre tantos acertos e dúvidas, estão tentando oferecer o melhor aos seus filhos. E, muitas vezes, empresto minha confiança até que eles consigam acreditar novamente em si mesmos.

Ao longo da minha trajetória, descobri que educar nunca foi apenas ensinar conteúdos. Educar é construir vínculos. É criar um ambiente onde as pessoas se sintam seguras para errar, tentar de novo, fazer perguntas, crescer. É oferecer uma presença que não julga, mas acolhe; que não aponta apenas o que falta, mas revela aquilo que já existe de melhor em cada pessoa.

Porque, quando alguém se sente verdadeiramente visto, ouvido e respeitado, algo extraordinário acontece. Ele cresce. Não porque alguém o empurrou, mas porque alguém acreditou.

Vivemos um tempo em que se fala muito sobre desempenho, metas e resultados. Tudo isso tem seu valor. Mas nenhuma aprendizagem acontece plenamente sem relações humanas. Antes de qualquer conhecimento, existe um encontro. E são esses encontros que permanecem na memória muito depois de esquecermos uma prova, uma nota ou uma aula.

Talvez seja por isso que o som dos meus passos tenha se tornado tão familiar. Não é sobre um salto alto ecoando pelos corredores. É sobre o que ele anuncia. Às vezes, um abraço. Às vezes, uma conversa. Às vezes, apenas um sorriso. Quase sempre, a certeza de que existe alguém disposto a caminhar junto.

Depois de tantos anos, continuo acreditando que o maior presente que podemos oferecer a alguém não é uma resposta pronta. É a confiança.

Porque pessoas que são vistas florescem. Pessoas que são acolhidas criam coragem. E pessoas em quem alguém acredita acabam descobrindo que sempre foram maiores do que imaginavam.

É por isso que continuo caminhando. Não para mostrar o caminho. Mas para lembrar que ninguém precisa percorrê-lo sozinho.

Marina Torrente

Educadora e coordenadora pedagógica do Anglo Kids