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O que Simone Biles e você têm em comum

Não há empresa sustentável com pessoas adoecidas. A prevenção segue sendo a estratégia mais eficaz

por Dr. Rafael Marconi
Publicado há 7 horasAtualizado há 4 horas
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Você provavelmente se lembra das Olimpíadas de Tóquio 2020. Simone Biles era o principal nome da ginástica mundial e competia sob expectativa máxima. No meio da disputa, decidiu se retirar. Não havia lesão física evidente. A decisão ocorreu após o surgimento dos “twisties”, condição em que o cérebro perde a capacidade de orientar o corpo no espaço, elevando o risco de acidentes graves. O fator desencadeante foi pressão psicológica extrema.

Quando isso acontece com uma atleta treinada desde a infância para lidar com cobrança e exposição, vale observar como situações semelhantes ainda são tratadas no ambiente de trabalho comum. Em escritórios, fábricas ou no varejo, sinais claros de esgotamento seguem sendo confundidos com cansaço pontual ou fragilidade individual.

Do ponto de vista médico, o quadro é objetivo. Trata-se da Síndrome de Burnout. Desde a CID-11, a Organização Mundial da Saúde reconhece o Burnout como fenômeno ocupacional, resultante de estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente gerenciado. Isso delimita a origem do problema no contexto profissional.

Para empresários e gestores, é frequente tratar saúde mental como tema estritamente individual. Na prática, esse entendimento gera custo. Profissionais em Burnout permanecem presentes, mas com queda de concentração, pior tomada de decisão e menor engajamento. Erros aumentam, riscos operacionais crescem e o impacto se espalha pela equipe. Como doença ocupacional, o quadro também pode gerar afastamento, estabilidade provisória e passivos trabalhistas.

Para quem está na operação, outro risco é assumir uma lógica de disponibilidade constante. O corpo responde antes do colapso com sinais previsíveis: insônia persistente, irritabilidade fora do padrão, perda de interesse pelo trabalho e sensação contínua de esgotamento. Ignorar esses alertas não aumenta desempenho. Buscar apoio especializado é uma decisão funcional.

Casos públicos como os de Simone Biles, Gabriel Medina e Neymar ajudam a dimensionar o problema, mesmo entre pessoas com acesso a recursos amplos. Na prática, o enfrentamento é compartilhado. Não há empresa sustentável com pessoas adoecidas. A prevenção segue sendo a estratégia mais eficaz e menos custosa.

Dr. Rafael Marconi

Médico do Trabalho. CRM-SP 222.154. RQE 144.905