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ARTIGO

O que fica de alguém

Aquilo que realmente importa não cabe em fotografias nem em caixas

por Simone Cristina Succi
Publicado em 08/08/2026 às 17:44Atualizado em 08/08/2026 às 17:48
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Quando uma pessoa querida morre, fazemos um esforço para compreender aquela ausência. É como se o vazio da saudade se transformasse em um lugar de encontro com quem se foi e de reconhecimento da importância que essa pessoa teve em nossa vida.

Quando penso nos pais que se foram, especialmente neste tempo em que celebramos o Dia dos Pais, lembro-me de Quase Memória, de Carlos Heitor Cony. No livro, o autor conta que recebe uma caixa enviada por seu pai, falecido havia muitos anos. Mas como assim? Alguém que já morreu poderia enviar um pacote? Pois é. Essa questão, que desafia a lógica, tem pouca importância diante do verdadeiro tema da obra: as memórias e os afetos despertados pela relação entre pai e filho.

Na história, o narrador não abre a caixa, não rompe o barbante. É como se não quisesse desvendar o mistério de seu conteúdo para preservar o espaço da imaginação, dando vazão às memórias, aos sentimentos e ao vínculo construído com o pai.

Cada lembrança conduz a outra, que se ressignifica, se contradiz, se amplia ou se reduz. Aos poucos, o leitor percebe que o verdadeiro conteúdo daquele embrulho não são os objetos, mas o pai que reaparece nas recordações do narrador. Esse pai não é idealizado nem perfeito. É espirituoso, contraditório, exagerado, inventivo, capaz de transformar a vida cotidiana em grandes histórias. Enfim, um pai profundamente humano.

Em Quase Memória, o passado retorna quase inteiro. Cony mostra que recordar não significa recuperar os fatos exatamente como aconteceram, mas reconstruí-los a partir da maneira como foram percebidos e vividos. A memória seleciona, reorganiza, esquece e até imagina acontecimentos, reescrevendo continuamente a nossa própria história.

Ao fazer isso, Cony parece sugerir justamente o contrário do que temos feito: registrar, fotografar e gravar tudo, como se a tecnologia fosse capaz de preservar a vida contra o esquecimento.

A reflexão nos leva a compreender que aquilo que realmente importa não cabe em fotografias nem em caixas. Permanece nas lembranças, nas histórias que insistimos em contar, na maneira como vivemos e na pessoa que nos tornamos graças às experiências compartilhadas com aqueles que amamos.

Penso que a delicadeza de Quase Memória esteja justamente em nos fazer compreender que algumas pessoas não permanecem porque deixaram objetos, mas porque continuam produzindo sentido muito tempo depois de sua ausência. Embora o calendário reserve um dia para celebrar os pais, sinto que eles permanecem muito mais nas heranças invisíveis que deixam em nós, todos os dias: num modo de olhar, numa frase repetida sem perceber, num gesto que um dia julgamos banal e que, de repente, nos revela o quanto eles continuam presentes.

As nossas memórias, como mostrou Cony, nunca são inteiras; são sempre um quase. E talvez seja justamente essa imperfeição que as torne tão profundamente humanas.

Simone Cristina Succi

Doutora em Linguística Aplicada, professora e redatora de materiais didáticos.