Diário da Região
RADAR ECONÔMICO

O preço invisível do online

por Gilberto Mariano
Publicado há 8 horas
Gilberto Mariano, vice-presidente da Acirp e diretor da Apeti (Divulgação)
Galeria
Gilberto Mariano, vice-presidente da Acirp e diretor da Apeti (Divulgação)
Ouvir matéria

Durante muito tempo, repetiu-se em Brasília a ideia de que a economia digital seria pouco tributada, quase como se o comércio eletrônico e os serviços que sustentam a venda pela internet vivessem em um mundo à parte, distante do peso real dos impostos no Brasil. Os dados mais recentes que circularam no fim de 2025 jogam luz sobre um cenário diferente e incômodo. O setor digital, justamente por ser mais fácil de rastrear, passou a carregar uma carga proporcionalmente maior do que a média e, em alguns recortes, maior até do que regimes simplificados amplamente conhecidos no país.

Há uma razão prática para isso. Os sistemas se conversam e a formalização, que é um avanço para a economia, também transforma quem faz tudo certo em alvo mais previsível para a arrecadação. Enquanto setores com longa tradição de regimes especiais, benefícios pontuais e ajustes negociados ao longo do tempo conseguem suavizar parte do impacto, a operação digital, do meio de pagamento à entrega, do atendimento ao suporte tecnológico, costuma conviver com menos “almofadas” tributárias. Soma-se a isso um elemento de competição desigual, grandes grupos com atuação global têm mais caminhos para organizar suas estruturas e distribuir resultados entre países, já as empresas brasileiras, sobretudo as pequenas e médias, pagam integralmente aqui, no caixa do mês, na realidade do município, com folha, aluguel, frete, crédito caro e o consumidor contando centavos.

É nesse ponto que a transição da Reforma Tributária deixa de ser um debate técnico e vira um tema de sobrevivência empresarial. A regulamentação e o início dos testes previstos para 2026 apontam para mudanças que mexem diretamente no coração do comércio eletrônico e de toda a cadeia que o sustenta, porque grande parte do que faz uma loja virtual funcionar é tratada como serviço. Estimativas que vêm sendo discutidas no mercado indicam que a carga hoje concentrada em tributos sobre consumo e serviços pode subir de um patamar em torno de 14% para algo perto de 26% a 28% no novo modelo. Se essa trajetória se confirmar, o impacto é imediato, a margem, que já é apertada, encolhe mais, o investimento em crescimento fica mais caro, e o repasse tende a aparecer no preço final. A conta, como quase sempre, não some, ela muda de lugar, e corre o risco de cair no colo do consumidor, diminuindo volume de vendas e esfriando o dinamismo que a venda pela internet trouxe para tantos negócios.

Outra mudança estrutural é a cobrança no destino, ou seja, o imposto passa a acompanhar o endereço do consumidor. Isso reorganiza estratégias logísticas, desafia a lógica de centros de distribuição montados para aproveitar incentivos regionais e obriga empresas a redesenhar rotas, prazos, estoques e contratos. Quem está no interior sente isso com força, porque logística já é um dos componentes mais caros da operação e, quando a regra muda, o custo não se ajusta sozinho, ele exige planejamento, investimento e tempo. E há ainda um ponto que tem sido pouco debatido fora das rodas especializadas, a retenção automática do imposto no momento do pagamento, o chamado pagamento dividido. Do ponto de vista da arrecadação, isso reduz inadimplência e aumenta o controle; do ponto de vista de quem empreende, pode retirar capital de giro que antes ficava disponível até a data de recolhimento. Para muitas empresas, especialmente as que vendem com margem curta e precisam financiar estoque e frete, capital de giro não é detalhe, é o que separa a expansão da estagnação, e a estagnação do fechamento.

Diante desse cenário, insistir em soluções improvisadas é flertar com o prejuízo. O momento pede previsibilidade, transição bem calibrada e, sobretudo, simplicidade real. Reforma boa não é a que apenas troca siglas, é a que reduz custo de conformidade, diminui litígio, dá segurança para investir e melhora o ambiente de negócios sem punir quem produz e gera empregos. Para as empresas, o recado é igualmente direto, a fase de ter “gordura” para absorver novas pressões acabou. Precificação precisa ser revista com antecedência, com simulações realistas; controles internos precisam evoluir para capturar corretamente créditos, já que a promessa de não cumulatividade mais ampla só vira alívio quando a empresa consegue registrar e comprovar cada etapa; e a gestão fiscal precisa sair do improviso, porque o risco operacional de erros cresce justamente quando a fiscalização é mais digital e mais automática.

Gilberto Mariano
Vice-presidente da Acirp