O ponto não é a franquia, é o formato

Quem enxergar o mercado de franquias neste ano apenas como atalho para empreender tende a se frustrar. O franchising segue como uma porta legítima para quem busca um modelo testado, padronização e curva de aprendizado mais previsível, mas o cenário econômico pede leitura mais madura: consumidor cauteloso, custos operacionais pressionados e crédito longe de ser simples. Nesse ambiente, a pergunta decisiva deixa de ser “em qual setor investir” e passa a ser “qual formato sustenta eficiência, recorrência e adaptação rápida, sem depender de estruturas caras e rígidas”.
O mercado vem premiando negócios mais leves e mais disciplinados, com operação enxuta, mobilidade e pouca dependência de ponto físico tradicional. Isso ocorre por um motivo direto: quando implantação, insumos, aluguel e equipe se tornam os itens mais sensíveis do orçamento, proteger margem vira prioridade. Formatos que reduzem barreiras de entrada e aceleram o giro, levando o serviço até o cliente ou operando com infraestrutura menor, com tecnologia e automação, deixam de ser tendência e passam a ser resposta racional ao custo Brasil.
Esse movimento se conecta a uma mudança estrutural no consumo, que valoriza conveniência, prevenção e ganho de tempo. Por isso, segmentos ligados a bem-estar, saúde, autocuidado, alimentação mais funcional, além de serviços essenciais como limpeza, conservação e manutenção, tendem a manter tração, não por prometerem milagres, mas por atenderem necessidades recorrentes. Educação e serviços do cotidiano de famílias e empresas também se beneficiam dessa lógica, quando entregam consistência. Para a economia regional, isso importa porque favorece negócios contínuos, que prestam serviços, geram ocupação e ativam cadeias locais com efeito multiplicador.
Ao mesmo tempo, o franqueado de 2026 chega mais informado e menos tolerante a promessas vagas. Ele entende que o negócio é físico e digital ao mesmo tempo, e que tecnologia deixou de ser diferencial para virar infraestrutura. Eficiência passa por atendimento bem roteirizado, treinamento escalável, logística organizada, gestão financeira rigorosa e decisões orientadas por dados. Automação e inteligência artificial entram como apoio para reduzir retrabalho e padronizar processos, mas não substituem o olhar humano nem a cultura de execução.
É nesse ponto que microformatos e microfranquias exigem seriedade. Baixo investimento pode ser oportunidade real para quem tem perfil operacional e disposição para conduzir a rotina, mas vira armadilha quando serve de justificativa para suporte frágil, treinamento insuficiente e ausência de método. Franquia enxuta não pode significar franquia improvisada. Sem transferência consistente de conhecimento e governança, o risco deixa de ser do mercado e passa a ser do próprio desenho do sistema, e quem paga é o franqueado, com capital, tempo e reputação.
Também é preciso tratar com clareza a integração entre canais. O híbrido já não é diferencial, é padrão mínimo. O consumidor transita entre descoberta, compra, entrega e relacionamento, e espera coerência em cada etapa. Redes que vendem discurso digital sem repassar um jeito de operar, medir e melhorar transformam o franqueado em revendedor, não em operador de um método. Franchising forte é o que ensina sem cessar, treina, acompanha e atualiza, sobretudo quando eficiência depende de dados, testes e aprendizagem contínua.
Por fim, um alerta indispensável: o maior erro de quem busca uma franquia é investir na ansiedade, não na investigação. Conversar com franqueados e ex-franqueados, entender a rotina real, testar o suporte, verificar experiência operacional do franqueador, pesquisar a reputação da marca, analisar profundamente as previsões financeiras apresentadas, entender sobre os fornecedores e suas condições de compras, analisar com atenção a Circular de Oferta de Franquia e Contratos, não são formalidades, são mecanismos de proteção. O mercado seguirá oferecendo oportunidades, mas elas estarão cada vez mais concentradas em quem escolhe menos pelo brilho do discurso e mais pela solidez do método.
Em 2026, abrir uma franquia pode ser um passo seguro, desde que o empreendedor compreenda que o verdadeiro ativo não é a promessa, é a capacidade do formato de gerar eficiência, recorrência e execução de alto nível, mesmo quando o ambiente econômico não concede facilidades.
Milena Lidor
Diretora 2ª Secretária da Acirp