O peso de “ser você mesmo”
O adolescente se vê pressionado a apresentar uma espécie de “versão oficial” de si mesmo

É comum ouvirmos, em discursos motivacionais ou conversas bem-intencionadas, o conselho: “seja você mesmo”. À primeira vista, a frase parece libertadora. Mas, no consultório, observo algo bem diferente: para muitos adolescentes, ela atua como uma violência sutil, um mandato impossível de cumprir justamente no momento em que a subjetividade ainda está sendo construída.
A adolescência é, por definição, um período de disputa interna. Trata-se de uma fase em que o sujeito experimenta, testa limites, questiona referências e desmonta antigas imagens de si. Esperar que um adolescente “seja ele mesmo” pressupõe que exista, dentro dele, um eu pronto, definível, coerente, mas na verdade, ele vive um território psíquico marcado por ambivalências, dúvidas e contradições legítimas próprias da fase em que está vivendo.
O imperativo da autenticidade funciona, então, como cobrança. O adolescente se vê pressionado a apresentar uma identidade estável, uma espécie de “versão oficial” de si mesmo: performática, vendável, coerente. Nas redes sociais, isso só se amplifica. Há uma exigência de narrativa: quem você é? Qual seu estilo? Seu posicionamento? Sua voz única? O espaço do ensaio desaparece. E o que deveria ser busca vira exposição, comparação e, muitas vezes, medo e vergonha.
No consultório, escuto jovens que se sentem fracassados por não saberem quem são. Confundem incerteza com erro. Como se dúvida fosse falha moral. Como se não corresponder a um ideal de autenticidade fosse prova de que “não deram certo”. Isso adoece. A ansiedade cresce, o isolamento se intensifica, e muitos desenvolvem sintomas que expressam exatamente essa impossibilidade de coincidir com a imagem esperada: paralisia, ataques de pânico, crises de identidade.
Mas a verdade é simples: ninguém nasce pronto. E exigir prontidão de quem está em formação é injusto.
Precisamos substituir a cobrança por disponibilidade. Mais escuta, menos rótulo. Mais paciência, menos pressa. O adolescente não precisa ser ele mesmo - precisa ter tempo e espaço para descobrir quem pode vir a ser.
Roberta Grangel
Psicóloga clínica. Mestre em Psicologia pela Unesp-Assis.