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Olhar 360

O menino que ainda mora dentro de nós

Quando um cachorro parte, a gente não perde apenas um companheiro; perde alguém que conhecia nossa essência sem esforço

por Regina Chueire
Publicado há 1 horaAtualizado há 7 minutos
Regina Chueire (Regina Chueire)
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Regina Chueire (Regina Chueire)
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Descobri, nesses dias de despedida, que existe um menino silencioso morando dentro de cada adulto.

A vida nos ensina a carregar responsabilidades, manter a postura e seguir em frente mesmo quando pesa. Com o tempo, aprendemos a parecer fortes.

Mas basta um focinho conhecido encostar na nossa mão para tudo mudar.

Um cão tem esse dom raro: ele atravessa todas as camadas que a vida construiu e encontra, sem erro, a parte mais verdadeira da gente. Não se impressiona com títulos nem com a dureza que mostramos ao mundo. Ele reconhece aquele menino escondido dentro de nós — aquele que ainda sabe brincar, esperar alguém chegar, falar mais manso e amar de forma inteira.

Com um cãozinho por perto, a vida desacelera. O carinho não precisa de explicação. A felicidade cabe numa patinha encostada na perna, num olhar atento acompanhando a rotina da casa, num corpinho deitado por perto como quem diz todos os dias: eu estou aqui. Talvez por isso a despedida doa tanto. Quando um cachorro parte, a gente não perde apenas um companheiro. Perde alguém que conhecia nossa essência sem esforço. Alguém que nos via por inteiro — inclusive a criança que o tempo tentou esconder.

E então esse menino reaparece: no silêncio da casa, no hábito automático de procurar por ele e nas lágrimas inesperadas — até naqueles que sempre pareceram inabaláveis. Vi isso de perto.

Meu marido, ortopedista há décadas, homem firme e acostumado a enfrentar a dor alheia com serenidade, fez questão de ir se despedir do Darth Vaider no hospital veterinário. Foi. E chorou.

Naquele instante não havia profissão nem armadura. Havia apenas um homem diante do seu pequeno amigo de dezesseis anos. E havia também o menino que ainda mora dentro dele: inteiro, vulnerável e cheio de amor.

Aquilo me tocou profundamente. Existe coragem em sustentar firmeza diante da vida. Mas existe uma coragem ainda maior em deixar o amor aparecer sem defesa.

Nosso Darth Vaider levou consigo uma parte preciosa da nossa rotina: o companheiro fiel, o pequeno guardião da casa, presença constante durante tantos anos. Também era conhecido por nós como nosso “imperador chinês”, pela elegância e pelo jeito quase solene com que circulava pela família. Gostava de ficar arrumadinho, de usar seus laços, e carregava essa pequena vaidade com uma naturalidade encantadora. Reinava pequeno e absoluto sobre a casa e sobre o nosso afeto.

Mas deixou também uma herança bonita: a lembrança de que dentro de cada adulto existe um menino capaz de amar de forma pura. E esse amor não vai embora com a despedida. Ele permanece. Na saudade. Na memória. Na gratidão imensa de termos sido escolhidos por dezesseis anos para sermos os humanos de um cãozinho que nos amou do jeito mais leal que existe. Darth Vaider partiu. Mas o amor que ele despertou em nós continua vivo. Quietinho. Pela casa. E dentro do coração. Como quem ainda conhece perfeitamente o caminho de volta.

Regina Chueire

Médica, professora da Famerp e diretora do Lucy Montoro/Funfarme.