O menino no espelho
O homem, tão acostumado a dar ordens e ser forte, desabou; chorou um choro de águas represadas

As interações e brincadeira era o que importava, e o aroma da merenda fresca era um abraço que vinha da cozinha, perfumando o universo inteiro. Naquela escolinha de portão baixo e horizonte largo, o menino desenhava o futuro com as cores do sonho, sem saber que o tempo é um bicho apressado que devora, sem cerimônia, os tons pastéis da infância.
Ele cresceu. O short, sujo de terra e liberdade, deu lugar à farda impecável, ao uniforme de gala e, mais tarde, ao terno de corte preciso. O olhar que antes se perdia no espanto diante do voo das borboletas foi substituído pela visão estratégica de quem aprendeu a dominar o mapa do mundo.
Mas o sucesso tem um preço silencioso: ele costuma ocupar todos os cômodos da alma, fechando janelas, empurrando para o sótão escuro das memórias esquecidas. No seu lugar, instalaram-se as "perturbações" da vida adulta — a pressa que não perdoa, e o peso de responsabilidades que agem como uma gravidade excessiva.
Até que chegou aquela manhã. Não foi planejado, as coisas mais sagradas não aceitam roteiro. Talvez tenha sido o reflexo de uma luz no orvalho ou um cantarolar vindo da rua, abriu uma fresta no tempo. No silêncio da manhã, o homem se viu, de repente, de volta ao pátio da escolinha infantil de outrora. E lá estava ele.
O homem e o menino se sentaram naquelas cadeirinhas da escolinha infantil Peter Pan, em Rio Preto, onde em criança estudou e, o mundo ainda cabia na palma da mão. O menino não perguntou sobre vida, o pequeno apenas estendeu a mão, reconhecendo o companheiro de jornada que havia se perdido na neblina dos anos.
Eles se abraçaram. Foi um abraço que atravessou décadas de ausência. O homem, tão acostumado a dar ordens, finalmente desabou. Chorou um choro de águas represadas, um pranto de quem sente uma saudade infinita de si mesmo. Naquele abraço, as armaduras do mundo adulto se dissolveram como açúcar na água. O sucesso, enfim, fazia sentido — não pelo que ele havia conquistado, mas porque o menino ainda estava lá, esperando para ser levado de volta para casa.
O homem, verdadeiramente sábio, pegou o menino pela mão e saíram os dois porta afora. Ele compreendeu: a maior vitória da vida não é chegar ao topo da montanha, mas conseguir voltar ao início e ainda reconhecer, com amor, o rosto da criança que nos deu coragem para começar. No uniforme escolar, um pouco gasto, mas cheio de luz, um nome teimava em não se apagar: Fábio Candido.
Jocelino Soares
Artista plástico – Pós-graduado em Arte-educação. Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura