O lucro que adoece
Em SP, a média é de 95 afastamentos diários de professores por problemas de saúde mental

Os dados recentes do Censo Escolar em São José do Rio Preto revelam um fenômeno previsível, mas inquietante: a rede particular bateu recordes, atingindo a marca de 30,1 mil alunos em 2025. Após o susto da pandemia, as famílias que recuperaram o fôlego financeiro correm de volta para o ensino privado, buscando a promessa de uma "primeira prateleira" educacional. No entanto, enquanto os pátios se enchem e as mensalidades sobem, uma pergunta incômoda paira no ar e raramente é respondida nas reuniões de pais: a que custo humano esse crescimento está sendo sustentado?
O aumento das matrículas no setor privado não tem se traduzido em uma valorização proporcional para quem está no "chão da escola". Pelo contrário, o que vemos é uma engrenagem que gira moendo o bem-estar de quem ensina. Dados alarmantes mostram que, no estado de São Paulo, a média é de 95 afastamentos diários de professores por problemas de saúde mental. Depressão e Burnout deixaram de ser termos técnicos para se tornarem companheiros de jornada de milhares de docentes. É uma ironia cruel: no ambiente onde se deveria cultivar o desenvolvimento humano, o que se colhe é o esgotamento.
Precisamos falar abertamente sobre a invisibilidade do trabalho docente. Você, que matriculou seu filho em uma escola particular este ano em busca de "qualidade", já se perguntou quanto ganha o professor dele? Muitas vezes, por trás de uma infraestrutura impecável e recursos tecnológicos de ponta, esconde-se um profissional que acumula três períodos de trabalho, corrige pilhas de provas em madrugadas insones e lida com salas de aula superlotadas para conseguir fechar as contas do mês. A "qualidade" vendida pelo marketing escolar frequentemente é extraída do suor e do silêncio de professores que não têm tempo sequer para planejar suas aulas com a densidade teórica necessária, como bem pontuou o sociólogo Fábio Villela.
A saúde mental do educador é o termômetro de um sistema doente. Pesquisas do Sinte-SC e da Revista Educação corroboram que a crise é sistêmica. Não se trata apenas de "estresse", mas de uma desvalorização estrutural que confunde o professor com um mero prestador de serviços ou, pior, um "facilitador" de conteúdos. O professor é o mediador indispensável entre o conhecimento acumulado pela humanidade e o futuro da sociedade. Quando esse mediador adoece, o futuro também entra em colapso.
É urgente que a gestão escolar entenda que investir em educação é, primordialmente, investir em gente. Não há projeto pedagógico inovador que resista a um docente exausto. As famílias também precisam cobrar: quantos alunos há em cada sala? Há tempo de descanso e formação garantidos? O lucro que ignora a saúde mental é um lucro manchado. No fim do dia, o que educa não é o tablet ou o prédio novo, é o brilho no olho de um professor que se sente respeitado e inteiro. Sem o bem-estar de quem ensina, a escola não passa de um depósito de crianças com fachada de luxo. Valorizar o professor é o único caminho para uma educação que seja, de fato, transformadora e humana.
Eduardo Alves de Lima
Professor de História e Pedagogo, Diretor Social do Sinpro Rio Preto e Região e Diretor Adjunto de Formação Política e Sindical da FEPESP.