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ARTIGO

O legado da coletividade

Se hoje temos um país, deve-se ao fato de que as mulheres negras pavimentaram nossos caminhos

por Juliana Mogrão Moreira
Publicado em 23/06/2026 às 20:58Atualizado em 23/06/2026 às 21:03
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No próximo dia 25 de julho, teremos a quarta edição da Marcha da Mulher Negro Latina Americano e Caribenha em São José do Rio Preto. Mas o que é a Marcha? Por que marchamos? Quem está por trás deste movimento?

Seria leviano de minha parte dizer que essa história se inicia em 1992, quando se instituiu o Dia Internacional da Mulher Negra Latina Americano e Caribenha e também o Dia Nacional de Tereza de Benguela. Afinal de contas, o movimento negro feminino se faz desde a origem da humanidade.

Se hoje temos um país, um sistema econômico, um sistema de governo, deve-se ao fato de que as mulheres negras, na época escravizadas, pavimentaram nossos caminhos através da força da sua coletividade. Por meio de muitas estratégias de sobrevivência, deixaram heranças utilizadas por muitos e reconhecidas por poucos. Foram as escravizadas de ganho que vendiam quitutes nas ruas e compraram abolições; foram os seios fartos de leite e repletos de dor que alimentavam todos; foram os conhecimentos em ervaria que curavam feridas e almas; foram seus corpos que carregavam e carregam sabedorias indispensáveis.

Hoje marchamos no nosso território com o objetivo de dar continuidade a tamanho legado, além de reivindicar direitos ainda negados pelo racismo estrutural, pela comodidade dos privilegiados e pela ignorância de tantos outros. Marchamos e convocamos a população rio-pretense a estar conosco, pois não há como ter uma sociedade digna sem combater desigualdades.

Através do legado da coletividade, somos mulheres pretas, somos coletivos de diversos segmentos, mães, filhas, avós, sobrinhas, professoras, psicólogas, advogadas, assistentes sociais, artistas, jornalistas e, acima de tudo, o fruto e o sonho daquelas que vieram antes. Somos a prova viva da força da resistência. Neste ano, em especial, também convidamos a população a caminhar com todas as possibilidades de mulheridades. Não vamos, em pleno 2026, fingir que não entendemos que não é somente a imposição biológica de um corpo que determina um gênero. Não sejamos tão limitados!

O convite é claro: estejam conosco na praça, onde já fomos proibidos de pisar, onde já fomos vendidos e hoje ocupamos. Estejam conosco, combatendo toda forma de discriminação e preconceito, e, acima de tudo, estejam conosco, honrando o legado de sangue, suor, lágrima e muita inteligência deixado para cada um de nós.

Por Terezas, Xica Manicongo, Erika Hilton, Zeze Mota e tantas outras, por todas, por nós hoje e sempre.

Juliana Mogrão Moreira

Psicóloga/Neuropsicóloga/Doula/Mãe da Luisa e da Maya. Membra do coletivo Mulheres na Política.