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ARTIGO

O impacto da cultura na vida das mulheres

As mulheres querem acesso. É pela cultura que a vida das mulheres se descoloniza

por Elis Bohrer
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
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Quando o acesso à cultura é limitado, o patriarcado respira aliviado. A cultura desperta o pensamento crítico, amplia horizontes e fortalece a autonomia das mulheres. Não é por acaso que a trajetória de tantas mulheres foi apagada ou distorcida ao longo da história.

Do século XVIII ao XX, mulheres negras sustentaram a cultura brasileira, mesmo diante do apagamento. No século XVIII, Chica da Silva enfrentou um sistema que negava sua existência e, ainda assim, construiu poder, embora tenha sido reduzida por narrativas racistas. No século XIX, Maria Firmina dos Reis rompeu o silêncio da literatura ao escrever contra a escravização e afirmar a humanidade negra, mesmo sendo esquecida por décadas. Já no século XX, Tia Ciata fez de sua casa um território de resistência, protegendo e articulando o nascimento do samba em meio à perseguição. Essas e tantas outras trajetórias mostram que a cultura sempre foi, também, um espaço de enfrentamento à colonização da vida das mulheres.

A presença das mulheres na construção da identidade cultural brasileira é enorme, mesmo que invisibilizada.

Hoje, muitas mulheres seguem afastadas das atividades culturais. A sobrecarga do trabalho, a falta de políticas públicas e a ausência de ações nos territórios dificultam o acesso. Muitas são mães que veem suas crianças e adolescentes passarem horas excessivas diante das telas ou em situações de ociosidade, o que pode resultar em impactos para a saúde física e mental, além de aumentar vulnerabilidades relacionadas à segurança. Diante da falta de alternativas, acabam tendo que, sozinhas, buscar caminhos para oferecer outras experiências e possibilidades de desenvolvimento às suas filhas e filhos e, consequentemente, à sociedade.

Quando uma gestão diz que cultura não é prioridade, revela desconhecimento da vida concreta. A cultura atravessa saúde, educação, segurança e economia, gera renda, cria vínculos e fortalece identidades. Também tensiona estruturas e transforma mentalidades, questionando violências como machismo, racismo, capacitismo e transfobia. É no encontro com a arte que muitas mulheres se reconhecem, se fortalecem e enxergam sua própria potência.

As mulheres querem acesso. Querem criar, participar, aprender, ensinar. Querem dançar, cantar, escrever, pintar, existir com liberdade plena. Queremos continuar o caminho de quem veio antes e abrir novos caminhos para quem ainda virá.

Elis Bohrer

Cantora, compositora, musicista, produtora cultural e presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Rio Preto.