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ARTIGO

O homem que meu pai foi

Há uma pergunta que poucas vezes fazemos aos nossos pais: quem eles eram antes de serem pais?

por ​​​​​​Gilson Ribeiro .
Publicado em 08/08/2026 às 17:44Atualizado em 08/08/2026 às 17:47
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Quando criança, eu jamais pensei nisso, para mim, meu pai sempre havia existido daquele jeito: forte, trabalhador, seguro de si, eu nunca imaginei que, antes de me pegar nos braços, ele também fora apenas um filho, um jovem cheio de sonhos, dúvidas e incertezas, tentando encontrar seu lugar no mundo.

Naqueles anos de infância, eu o admirava quase como um herói, pois enquanto eu tinha medo do escuro, da altura e até dos velórios, ele parecia não temer absolutamente nada, e nunca o vi recuar diante das dificuldades. Entre todas as heranças que recebi dele, nenhuma foi material, o que ficou foi muito maior — caráter, honestidade e uma coragem silenciosa que dispensava discursos.

O tempo passou, e então chegou o dia em que Deus me confiou duas filhas, e foi naquele instante que compreendi meu pai, descobri que um homem não deixa de sentir medo quando se torna pai; ele apenas aprende a escondê-lo para que os filhos se sintam seguros. Hoje, se existe um único medo em meu coração, é o de partir antes de concluir minha missão de pai.

Recentemente, uma de minhas meninas voltou de um acampamento triste porque sua garrafa havia sido arranhada pelos galhos da mata, e queria apagar aquelas marcas. Enquanto a ouvia, percebi que a vida faz exatamente o mesmo conosco, a paternidade também nos arranha. Afinal são noites sem dormir, preocupações, renúncias, cabelos brancos e cicatrizes invisíveis, mas são justamente essas marcas que revelam o tamanho do nosso amor.

Hoje entendo que meu pai também carregava as suas, muitas delas eu só consegui enxergar depois que me tornei pai, e talvez seja esse o maior mistério da vida — um filho passa anos admirando o pai, mas somente quando se torna pai consegue compreendê-lo.

Neste Dia dos Pais, quero agradecer ao homem que um dia foi apenas um filho e que, sem perceber, construiu dentro de mim muito mais do que um sobrenome, construiu valores, fé, dignidade e amor.

Porque um pai pode envelhecer, partir e até silenciar sua voz, mas aquilo que ele planta no coração dos filhos jamais morre. Esse é o verdadeiro legado da paternidade, e talvez seja essa a mais bela homenagem que um filho possa fazer ao seu pai — viver de um modo que ele continue existindo através de nós.

​​​​​​Gilson Ribeiro

Contador, cronista, poeta e membro da Academia Maçônica de Letras e Cultura do Noroeste Paulista.