O Guardião do Saber
Romildo Sant’Anna é um verdadeiro guardião das nossas tradições caipiras

Existem figuras que se fundem à paisagem de uma cidade de tal forma que se torna impossível pensar na cultura local sem evocar seus nomes. Romildo Sant’Anna é uma dessas colunas mestras. Professor doutor e pesquisador incansável, ele é o homem que decifrou os enigmas e a genialidade de José Antônio da Silva, garantindo que o legado do maior mestre da nossa pintura fosse compreendido em toda a sua profundidade e riqueza estética.
Minha memória me transporta ao ano de 1974, nos velhos corredores da Casa de Cultura. Lá se vão mais de cinquenta anos de uma amizade forjada no respeito mútuo, no café compartilhado e na paixão pelas artes. Naquela época pioneira, já era visível em Romildo a semente do grande intelectual que se tornaria: um homem de saber vasto, refinado, mas de uma generosidade ainda maior no ato de compartilhar esse conhecimento com os seus pares.
Hoje, dividimos as prestigiadas páginas dominicais deste Diário da Região. É um privilégio renovado ser "vizinho de coluna" de quem maneja a caneta com a precisão cirúrgica de um cientista e a sensibilidade de um autêntico poeta. Romildo não escreve apenas para informar o leitor; ele escreve para preservar a nossa memória viva e para dar um sentido profundo ao nosso pertencimento a esta terra bendita do interior paulista.
Guardo com imenso carinho as lembranças do tempo em que eu trabalhava na Polícia Militar - hoje reformado -, atuando como guarda de trânsito pelo centro de Rio Preto. Ele passava com seu Opala amarelo, o inesquecível “Abobrão”. Eu apitava forte, dava o sinal regulamentar para encostar e, ato contínuo, íamos tomar café e prosear na Livraria Shangrilá. Também sinto saudades das tardes fagueiras passadas entre as bananeiras, cajueiros e limoeiros do meu quintal, onde conversávamos por horas a fio no ambiente do meu ateliê de pintura.
Romildo Sant’Anna não é apenas um acadêmico respeitado e ouvido; é um verdadeiro guardião das nossas tradições caipiras e o intérprete maior da nossa estética cabocla. Sua trajetória é um testemunho de que o saber só é pleno quando serve à comunidade.
Rô, apareça sem ser convidado aqui no ateliê. Você pode.
Fica aqui o meu abraço fraterno ao mestre e amigo querido de uma vida inteira. Que sua caminhada continue firme como as raízes fortes das árvores que Silva tanto pintou, e que sua escrita inspirada continue a alumiar as nossas manhãs de domingo por muitos anos. Saúde, meu caro Romildo! Mais de meio século de amizade celebra a sua existência.
Jocelino Soares
Artista plástico, pós-graduado em Arte-educação e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura.