Diário da Região
ARTIGO

O Falso Padre

Quando começou a ladainha, sua voz soava rouca, como o som do vento nas fendas das pedras

por Jocelino Soares
Publicado há 12 horas
Jocelino Soares (Jocelino Soares)
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Essa, é mais uma daquelas histórias acontecidas no interior do nosso Brasil. A igreja matriz nunca vira tanto luxo, nem tanta tristeza. O Coronel Theotônio de Alcântara, dono de meia comarca e de todas as vontades, não poupou nos castiçais de prata e nos lírios que sufocavam o ar. Queria selar o destino da filha, Maria Rosa, com um homem que tinha o dobro da sua idade e o triplo da sua frieza. O noivo, esticado em seu terno de linho, exibia o sorriso de quem acaba de ganhar uma escritura de terra, não uma esposa.

Maria Rosa, aos dezenove anos, parecia uma estátua de cera. Por trás do véu, os olhos estavam secos — não por falta de dor, mas porque as lágrimas haviam se esgotado nas noites insones da Fazenda Bela Aurora. Ela levava no bolso do vestido, escondido sob as rendas, um papel amarelado e gasto. Era o bilhete que Tino, o empregado expulso a relho anos antes, deixara: “Eu volto pra te buscar”. Mas o tempo, esse senhor impiedoso, parecia ter transformado a promessa em poeira. O altar estava mergulhado numa penumbra solene. O padre, vindo de uma paróquia distante especialmente para a ocasião, mantinha a batina pesada e o rosto sob a sombra do capuz. Quando começou a ladainha, sua voz soava rouca, como o som do vento nas fendas das pedras. A cerimônia avançava como um cortejo fúnebre até chegar ao momento do xeque-mate: o consentimento.

— Maria Rosa, aceita este homem por seu legítimo esposo? — a pergunta ecoou, fria.

O silêncio que se seguiu foi cortante. O Coronel franziu a testa, o noivo ajeitou o colarinho. Foi quando o padre deu um passo à frente, saindo da sombra. Ele não esperou a resposta. Em vez disso, segurou a mão trêmula da noiva com uma força que não vinha da igreja, mas da lida. Inclinou-se e sussurrou, alto o suficiente para que apenas ela sentisse o calor do hálito:

— Eu não criei calo na mão e coragem no peito pra te ver casar com outro, Rosa.

O mundo parou. Quando Maria Rosa levantou o véu, não encontrou a face de um santo, mas os olhos de brasa de Tino. Ele não voltara rico em ouro, mas voltara rico em audácia. O choque paralisou a nave da igreja. Antes que o pai pudesse gritar por seus jagunços, Tino arrancou a estola e revelou o cinturão de couro por baixo da bata.

Não houve “sim” nem “amém”. O que houve foi um clarão de coragem. Maria Rosa, num gesto que a cidade contaria por décadas, abandonou o buquê aos pés do noivo e correu. No átrio, o cavalo castanho bufava, impacientes.

O Coronel ficou com sua autoridade caída no chão da matriz. Tino e Maria Rosa sumiram na estrada, levantando uma cortina de poeira que nenhum dinheiro ou poder poderia atravessar. Dizem que, naquele dia, Deus olhou para baixo e sorriu, pois nem toda união escrita pelos homens é sagrada, mas toda promessa de amor feita com verdade um dia volta para ser cobrada.

Jocelino Soares
Artista plástico – Pós-graduado Arte-educação. Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura