O Falso Padre III: Fruto da Promessa
O nome Theotônio de Alcântara, antes temido, agora era apenas um chamado doce

Os anos são como as águas de um rio: passam silenciosas, mas levam embora as mágoas mais pesadas. O escândalo do casamento interrompido virou lenda nas varandas da cidade, e o nome de Maria Rosa foi, aos poucos, sendo apagado das conversas do coronel Theotônio de Alcântara — embora nunca tivesse saído do seu peito.
Longe dali, na fronteira de uma terra que ninguém conhecia, Albertino e Maria Rosa ergueram seu império de tijolos e suor. Não havia prataria, mas havia o cheiro de café novo e o riso de um menino de cinco anos que corria entre o milharal. O pequeno tinha o mesmo queixo firme e o olhar penetrante do avô, mas sem a amargura que o tempo costuma trazer aos poderosos.
Certa tarde, uma poeira alta anunciou visita. Não eram os jagunços de antigamente. Era apenas um carro antigo, parando devagar diante da porteira. Dele desceu um homem curvado, cujo chapéu parecia pesado demais para a cabeça cansada. Era o coronel Theotônio. O tempo, esse domador de bravos, tinha tirado o brilho das suas botas e a soberba da sua voz.
Maria Rosa saiu à varanda, secando as mãos no avental. O silêncio que se seguiu não foi de medo, mas de uma paz que só os vitoriosos conhecem. O velho olhou para a filha, mas seus olhos logo se desviaram para a criança que espreitava o estranho por trás do mourão da cerca. Vendo o tremor nas mãos do pai, a filha sentiu o peito transbordar e chamou o pequeno:
— Vai lá, meu filho... vai conhecer o seu avô. Vai lá, Theozinho.
Ao ouvir o próprio nome saindo da boca da filha para batizar o neto, o mundo do coronel desabou. O nome que ele carregava como um brasão de ordens e rigidez agora era a identidade de uma criança pura. Ele deu um passo trêmulo e se ajoelhou na terra batida, esquecendo a limpeza do terno e a pose de patrão.
O pequeno Theo aproximou-se e, com a curiosidade dos anjos, tocou com a mãozinha suja de terra a face engelhada do velho. Ali, diante da sua imagem renovada, o homem de ferro se debulhou. Não foi um choro de tristeza; foi um desaguamento de anos de solidão. Ele abraçou o neto com uma força desesperada, molhando a camiseta do menino com as lágrimas de quem finalmente encontrou o caminho de volta para casa.
Tino aproximou-se e parou ao lado de Rosa. Não trazia arma nem rancor, apenas a mão calejada que pousou, finalmente, no ombro do sogro.
— O senhor demorou pra ver, coronel Theotônio — disse Tino, com a voz mansa de quem venceu a lida. — Mas aqui a gente não planta só café. A gente planta destino.
Naquela tarde, o sol se pôs mais lento. O coronel não levou ninguém embora. Em vez disso, sentou-se no chão com o neto, aceitou naco de bolo de fubá e uma caneca de café passado por Rosa e, pela primeira vez, entendeu que a maior fazenda do mundo não vale nada se o dono não tiver para quem deixar o amor. O nome Theotônio de Alcântara, antes temido, agora era apenas um chamado doce que ecoava no quintal, provando que o perdão é a única colheita que realmente alimenta a alma.
Jocelino Soares
Artista plástico - Pós - graduado Arte - educação. Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura.