O falso Padre II: Galope do Destino
Agora, não era apenas uma fuga; era a construção de um reino onde o coração era a única lei

O sino da matriz ainda batia, mas não era para anunciar o fim da missa. Era o dobre do espanto. Enquanto o coronel Theotônio de Alcântara esbravejava no altar e o noivo traído tentava recolher os cacos da própria dignidade, Tino e Maria Rosa já eram vultos na curva da estrada. O cavalo castanho, treinado para a lida e para a fuga, parecia entender que levava nas costas mais do que dois corpos: levava o destino de uma vida inteira.
Maria Rosa sentia o vento chicotear o rosto, desmanchando o penteado caro que as criadas levaram horas para montar. O véu de renda se enganchou num ramo de ipê à beira da estrada e ficou para trás, como se a moça estivesse despindo a pele da velha "filha do patrão" para virar a "mulher do Tino". Ela apertava a cintura dele com uma força que não sabia que tinha.
No alto da Serra do Arrependido, onde a vista alcança o vale todo e o mundo parece maior que qualquer fazenda, Tino puxou as rédeas. O animal parou, bufando fumaça pelas ventas, com o coração batendo no mesmo ritmo acelerado dos fugitivos. Maria Rosa ainda tremia, o peito subindo e descendo, os olhos fixos na poeira que subia longe, lá embaixo — o sinal de que os capangas do pai já estavam no rastro.
Tino desceu do cavalo e ajudou Rosa a descer. No silêncio daquela tarde que morria, cercados pelo cheiro de mato e liberdade, o tempo parou de correr. Eles se olharam como se estivessem se vendo pela primeira vez em mil anos. O ódio do coronel Theotônio e o brilho das pratas da igreja ficaram pequenos diante daquele reencontro.
Albertino não resistiu. O homem que enfrentara o mundo para cumprir uma promessa de menino, agora amolecia diante da amada. Ele segurou o rosto dela com as mãos calejadas pela lida, e Maria Rosa fechou os olhos. Ali, entre o perigo que vinha atrás e o mistério que esperava na frente, eles deram o primeiro beijo. Um beijo que tinha gosto de promessa cumprida, de sal e de uma doçura que nenhuma riqueza do mundo poderia comprar.
— Agora sim — sussurrou Tino, encostando a testa na dela. — Agora você é minha e de mais ninguém.
— Sempre fui, Tino. Só faltava você vir me buscar.
O som de um galope distante quebrou o encanto. O perigo não esperava pelo amor. Tino montou num salto e estendeu a mão para ela. O beijo lhes dera a força que faltava. Agora, não era apenas uma fuga; era a construção de um reino onde o patrão não mandava e o coração era a única lei.
Atravessaram o riacho antes que a primeira estrela despontasse, sumindo no abraço das matas, deixando para trás apenas o rastro de um amor que não teve medo de saltar no escuro.
Jocelino Soares
Artista plástico – Pós-graduado Arte- educação – Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura.